sexta-feira, 24 de abril de 2026

SALVE OS NATIVOS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO

                                                                                            Isaac Warden Lewis

No mês de abril de 2026, foram exibidos pela TV Cultura de São Paulo programas de extrema importância para a sociedade brasileira. Primeiramente, no dia dezenove, foi exibido o documentário Xingu conexão ancestral Tókio, demonstrando as identificações entre a arte japonesa e a arte dos povos nativos da sociedade brasileira, no caso, os povos do Xingu. O programa evidenciou que as pinturas e as esculturas produzidas pelos orientais, particularmente pelos japoneses, assim como suas relações culturais com a natureza, possuem ligações ancestrais com a arte e a cultura produzidas pelos povos do Xingu. Isso já foi estudado e demonstrado por arqueólogos e antropólogos brasileiros e internacionais.

No dia vinte e um de abril, o programa Roda Viva entrevistou o escritor Daniel Munduruku, que ministrou uma aula muito instrutiva sobre a vida e a cultura do povo Munduruku. Daniel nasceu em 1964, no Pará, fez vários cursos universitários, entre os quais Literatura e Filosofia. Publicou mais de 70 livros e continua escrevendo. Os livros são voltados para seus parentes e para jovens e crianças de nossa sociedade. Estranhamente os membros da Academia Brasileira de Letras nunca o convidaram para que ele fizesse parte dessa importante instituição. Isso me fez lembrar que a brasileira Giselda Laporta também nunca foi convidada para fazer parte dessa academia. Isso indica que essa academia menosprezou a sabedoria das mulheres e dos povos originários. E por falar nisso, por que será que nos nossos tribunais de justiça, nas assembleias legislativas e no Senado não temos afro-brasileiros e nativos nos representando? Por que será que esses indivíduos são premiados e consagrados em países que fundaram repúblicas democráticas e os brasileiros que se julgam europeizados não adotam medidas avançadas nas academias, nos tribunais e assembleias legislativas?

 A propósito, muitos de nossos nativos desenvolveram conhecimento através da oralidade, o que também me fez lembrar que certos literatos costumam citar o filósofo Sócrates, o qual se comunicava através da oralidade. Aliás, no mundo antigo a principal forma de comunicação era a oralidade. No caso de Sócrates, além de se comunicar oralmente com seus interlocutores, ele criou um método de investigação, a Maiêutica, questionando continuamente seus interlocutores, obrigando-os a revelar sua ignorância. Isso também me faz lembrar que em 1993 os doutores da USP questionaram os professores da Universidade do Amazonas por criar um curso de filosofia em São Gabriel da Cachoeira – AM, demonstrando ignorância e preconceito. Essa situação ainda me faz lembrar uma experiência de Helen Keller, norte-americana, cega e surda-muda, educada por uma cuidadora, Anny Sullivan. Um dia, ela estava em casa e recebeu a visita de uma amiga a qual resolveu andar pelos bosques nas proximidades. Na volta, Helen perguntou se ela havia visto alguma coisa interessante. A amiga, com dois olhos, dois braços e duas pernas, como relatou Helen Keller, respondeu que não vira nada de interessante. Todos nós, brasileiros universitários, devemos ler os livros de Hellen Keller, de Giselda Laporta e de nosso compatriota Daniel Munduruku.

É hora, ou melhor, já passou da hora, desse país que se diz abençoado por deus, o que é, evidentemente, uma falsidade medieval, fazer reformas realmente inclusivas na sua Constituição e implantar uma república verdadeira, não uma republiqueta de vassalos.

Falar em dia do índio é um equívoco porque não existe índio no Brasil tampouco indianos. O que existe são povos Mura, Parintintin, Tucano, Dessana, Baniwa, Maku, Guarani, Tupi-guarani, Tupinikim, Tupinambá, Tamoio, Krenak, Munduruku, além de muitos outros que estão nesse território há mais de dez mil anos. No norte do Brasil, havia os Manaú que organizaram uma luta sob o comando de Ajuricaba o qual recebia armas dos holandeses que desciam o rio Negro até Manaus. Havia também os Mura que empreenderam lutas contra os invasores portugueses e espanhóis. No Amazonas há ainda hoje os Waimiri-atroari que sofreram perdas de vidas durante a construção da Transamazônica. Por isso não bastam desculpas. A sociedade brasileira deve indenização a esses nativos também. Do Brasil saíram os Tupinambá que foram para o Caribe e também saíram os Caribe, que foram para aquela região. Quando os ingleses chegaram em Barbados, encontraram os Caribes e os Tupinambás. No sul do país, os Guarani sofreram muitas perdas também quando os “gloriosos” bandeirantes paulistas  invadiram o território guarani e sequestraram nativos em São Paulo. Houve um momento em que os jesuítas espanhóis que tratavam os nativos com respeito e consideração resolveram relatar os crimes covardes dos bandeirantes paulistas e solicitaram apoio da Espanha, que os autorizou a usar armas contra os paulistas. Os jesuítas fabricaram armas e ensinaram os nativos a usá-las. Os paulistas chegaram a aldeia para sequestrar mais nativos e foram recebidos à bala. Surpresos, fugiram do local, deixando alguns mortos. Resolveram seguir em direção ao Mato Grosso e Goiás para procurar garimpo e ouro e muitos morreram pelo caminho. Os que chegaram a uma aldeia encontraram ouro e resolveram descer o Tapajós para chegar a Belém. Pretendiam solicitar do governo da província autorização para explorar as minas que encontraram na aldeia dos nativos Tapajós. O governo demorou a autorizar a expedição dos paulistas. Ele não tinha autorização da Coroa portuguesa, mas o governo foi autorizado a permitir a exploração das minas dos nativos tapajós, sendo que o governo deveria acompanhar e autorizar as ações dos bandeirantes. Eles partiram para Goiás. Logo a seguir, uma comitiva do governo paraense seguiu para Goiás para fiscalizar o trabalho dos bandeirantes paulistas. Quando a comitiva paraense chegou a Goiás, encontrou os bandeirantes mortos. Os indígenas os assassinaram e se retiraram para local desconhecido. A comitiva paraense nada pode fazer e retornou a Belém. Tudo isso está relatado no livro “...E o branco chegou com a cruz e a espada”, de José Oscar Beozzo. Outro livro importante para conhecermos o país em que vivemos.  Minha homenagem póstuma a Márcio Sousa, Tiago de Mello, Arthur Engrácio que escreveram sobre a realidade de nativos que conviveram com judeus, turcos, quilombolas, libaneses, argelinos. A sociedade brasileira é multirracial e isso é motivo de orgulho. Não precisamos ir para países que adotaram falsa democracia e falsa república, incapazes de assimilar as lições dos revolucionários da Revolução Francesa e se orientaram por visões medievais.

Por fim, fica evidenciado por tudo que foi explicitado sobre a ocupação dos nativos no território brasileiro que eles ocuparam esse território há mais de dez mil anos e cuidaram bem da natureza desse território. A sabedoria milenar desses povos pode ser comprovada pela declaração de um nativo por ocasião da última enchente no Rio Grande do Sul, quando um jornalista perguntou a um nativo se as águas não invadiam sua residência e ele respondeu que seus parentes não construíam suas casas em terra baixa, no caminho das águas, construíam nas partes altas ou debaixo do caminho das águas e construíam cavernas para se abrigarem. Mostrou as cavernas construídas por eles debaixo do caminho das águas. Salve o dia dos nativos – 19 de abril.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

         





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Violência histórica na sociedade brasileira colonizada – 20,00

A expressão literária – 30,00

Trabalhos acadêmicos – 20,00

Escrita e conhecimento – 25,00

Conhecimento e realidade social em Karl Marx – 20,00

Os apartados no Brasil império – 30,00

Sentimento e consciência – 20,00

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segunda-feira, 16 de junho de 2025

A MULHER, A MINISTRA E O MEIO AMBIENTE


                                                                  Lucilene Gomes Lima*



Foto: Wikipédia


As palavras revelam mais do que seus emissores desejam ou pensam revelar. O senador Plínio Valério em audiência na Comissão de Infraestrutura do Senado, no dia 27 de maio de 2025, em que interpelava a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, lhe diz: “A mulher merece respeito, a ministra, não". O senador separou o ser mulher do cargo que ela ocupa. Acaso alguém pode se separar da sua condição social, histórica, biológica para assumir um cargo? Isso precisaria ser possível para que o senador, segundo outra fala sua, pudesse enforcar somente a ministra e não a mulher.

Singularmente com a mulher ocorre o fato de se separar o que ela é profissional e socialmente de sua categoria ontológica. Na sociedade de consumismos em que vivemos, muitas vezes, as datas de vendas do comércio separam mãe, mulher, profissional. Nesse contexto, por mulher se entende apenas o sexo e sua capacidade de atração e geração. Por isso, quando alguém refere a palavra mulher precisa explicitar o que quer dizer com essa palavra.   

O senador Plínio Valério diz respeitar as mulheres porque tem seis filhas. Para ele, ter filhas, fato que, no momento de geração, não depende de sua escolha, significa respeitar mulheres. É preciso saber se ele respeita as filhas em seus estudos, suas profissões e como seres pensantes. O senador diz respeitar a ministra Marina como mulher, porém demonstra não respeitar Marina, ser histórico com inegável participação e luta nas questões ambientais, as quais motivaram toda a discussão e os desentendimentos. Marina, ser social mulher, já estava envolvida com as questões ambientais antes de ser ministra do meio ambiente. O senador Plínio finge ignorar que a mulher nunca se separou em convicção, pensamento e ação da ministra. Marina cresceu ativista ambiental, foi membra de partido político de ativismo ambiental, o Partido Verde, e fundou um partido cujo lema principal é o ativismo ambiental, a Rede Sustentabilidade, e se não merece respeito como ministra, também não é considerada confiável pelo setor do agronegócio brasileiro, daí seus embates como sindicalista, parlamentar e ministra. Marina sempre enfrentou embates nos cargos que ocupou, tendo se mantido firme em seus princípios. O senador Plínio separou Marina, ser real, histórico de seu cargo e a pôs numa categoria abstrata, a mulher. Por outro lado, o senador Plínio demonstrou, por suas próprias palavras, não respeitar nem mesmo essa categoria, uma vez que diz que a esposa o repreendeu por não a ouvir e ouvir a ministra Marina. Não é demais inferir que se o senador não ouve sua mulher, que não é ministra, pode também não a considerar nem respeitar.

Dizem que a emenda costuma sair pior do que o soneto e parece ter sido isso que ocorreu quando o senador Plínio, ao tentar se retratar por sua fala com relação à ministra Marina, disse em entrevista: “Se eu pedir desculpas para Marina não entro em casa”. Não se pode precisar o que o senador quis dizer com essa fala. Talvez signifique que ele nunca pede desculpas para sua mulher e ela, a exemplo do contexto em que o recriminou por não ter disposição de ouvi-la, não aceite a sua contradição.

O senador Plínio demonstrou covardia usando as mulheres (esposa e filhas) para se eximir da acusação de preconceito e foi oportunista e demagógico ao recorrer à pandemia de Covid 19 para justificar o descaso e o desrespeito para com o ambiente de sua terra natal. Como as palavras não estão livres do oportunismo de quem as enuncia, o senador Plínio Valério e o senador Omar Aziz se transformaram em paladinos dos direitos humanos, da compaixão humana, alardeando o desejo de salvar pessoas e, ao mesmo tempo, menosprezando a catástrofe ambiental planetária, na qual, inclusive, as pandemias podem se generalizar. Quando o senador Plínio diz que se pedisse desculpas à ministra não conseguiria se eleger nem para o cargo de vereador, indica quem são seus eleitores, mas, devido sua imprecisão vocabular, não se sabe se o que ele quis realmente comunicar é que não será reeleito porque pede desculpas a uma ministra que se posiciona a favor da preservação do meio ambiente ou porque, simplesmente, pede desculpas a uma mulher.

O senador Marcos Rogério, presidindo a Comissão de Infraestrutura, disse à ministra Marina que ela estava agindo por sexismo e depois que era mal-educada por interromper a fala dos senadores e lhes apontar o dedo, por último, disse à ministra que se colocasse no seu lugar. Todas essas acusações têm um contexto que as precederam, apesar de o senador Marcos omitir esse contexto ao se defender em plenário por suas falas e criticar o comportamento da ministra como de uma pessoa exaltada e desrespeitosa. O sexismo do qual o senador acusou a ministra foi trazido à discussão na comissão não por ela, mas pelo senador Plínio, e o desrespeito ao direito de fala foi praticado pelo próprio senador Marcos quando cortou o microfone da ministra, que respondia ao senador Omar Aziz, o qual, com tom de voz alterado e ofensivo, ao denominar a equipe do ministério de “meia dúzia de especialistas que falam besteira sobre região que não conhecem”, a acusou de não ter lhe respondido uma pergunta. O que o senador Omar finge não saber é que Marina nasceu num estado da Amazônia, o Acre, e que conhece a região como lugar de vivência, não somente como função burocrática de governo. O contexto demonstra que a ministra só alterou o tom de voz, apontou o dedo em riste e, por fim, retirou-se da audiência após ter sido sucessivamente ofendida.    

Os três parlamentares foram inábeis ou sordidamente hábeis com as palavras, apesar de ocuparem o cargo de respeitáveis senadores da República. Todos revelaram-se por suas palavras: aquele que disse que respeitava uma mulher sem, de fato, respeitá-la; aquele que menosprezou a preocupação com a segurança ambiental, qualificando-a como “conversinha de governança” e aquele que disse a uma ministra mulher qual era o seu lugar de fala – calar-se. É preciso questionar para que servem a Educação, o Congresso, o Ministério do Meio Ambiente se os senadores Omar Aziz, Marcos Rogério e Plínio Valério, dentre outros, não consideram e não respeitam os conhecimentos e os dados técnicos produzidos por especialistas brasileiros.

Longe de não ser importante a discussão sobre o gênero que a audiência possibilitou, a questão do meio ambiente é central, primeiramente, por demonstrar a capilaridade dos interesses em jogo. Um embate, na verdade, entre o grande capital e os defensores da preservação ambiental, conforme explicita na audiência a fala do senador Lucas Barreto, autor do requerimento que convidou a ministra: “[...] Nós queremos esse direito de prospectar essa riqueza que tem na costa do Amapá”. Enquanto uma ministra apresenta dados técnicos, um senador apenas diz que ela está mentindo, ecoando os interesses das empresas que extraem gananciosamente os elementos naturais, constroem estradas, administram e lucram com as frotas rodoviárias. Nesse aspecto, explica-se a confluência de propósitos dos senadores: desmoralizar o poder de voz de uma mulher e menosprezar o tema da catástrofe ambiental.   

 


 * Mestra em Estudos literários pela Universidade Federal do Pará, autora dos livros O mestre e o discípulo, O julgamento, Ficções do ciclo da borracha, A expressão literária, O produto imaginário, cofundadora da editora Mundo Novo 


sábado, 31 de maio de 2025

L A N Ç A M E N T O

 





Esse livro é composto de duas partes. Na primeira são caracterizadas as bases  constitutivas do produto imaginário na mensagem publicitária a  partir  de    concepções históricas e sociais do feminino e como esse discurso se apresenta na mensagem publicitária brasileira através da análise de anúncios elaborados nas décadas do século XX e primeira década do século XXI. Na segunda parte são analisados os veículos transmissores dos anúncios e a consequente relação ideológica entre os conteúdos das mensagens publicitárias e os conteúdos divulgados por esses veículos. 


quinta-feira, 22 de maio de 2025

(DE) CADÊNCIA

 

                                                                                                     Lucilene Gomes Lima

 

P

 

elo barulho do tecido se rasgando, ela calculou que o vestido se partira de cima a baixo. “Mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria, Maria das Graça”’, pensou. Mas por que se chamava assim? Estava tão certa de seu infortúnio a ponto de resgatar o passado obscuro?

Chamava-se, de fato, Maria das Graças, mas mudou de nome e de vida para ser Josephine, a modelo refinada das passarelas. No tempo em que fora Maria das Graças nunca brilhara, nunca encantara plateias seletas, nunca conhecera o mundo da moda nem vestira os mais invejáveis vestidos, idealizados por geniais estilistas. Só ela sabia o que era nascer numa cidade do interior que apenas os mapas registram. Por isso, decidiu enterrar o passado. Preferiu fazer de conta que Maria das Graças nunca existira.

Então, por que se lembrar agora de que Josephine não era seu nome verdadeiro? Se tudo foi modificado para que não ficasse o mais leve sinal da existência de Maria das Graças. Mudaram-lhe a cor do cabelo, transformaram-lhe os traços do rosto, ensinaram-lhe um novo modo de falar, andar, comer, sorrir. E assim, aos poucos, ela esqueceu realmente quem era. Deslumbrou-se com o mundo da moda e passou a orientar-se somente por ele. Uma ou outra lembrança que lhe vinha da vida de outrora servia apenas para reforçar sua abjeção: a mãe chorando, debruçada à janela no dia em que ela partiu; a mãe, trajando aquele vestidinho de chita... como era triste e insignificante o mundo que ficava para trás.

Só, no camarim, buscava uma explicação para ter chegado ao ponto de descuido que chegara e, mais que tudo, buscava uma forma de salvar-se do vexame.

Calculava quanto custaria aquele vestido. Certamente não estava em jogo somente o valor em dinheiro. Sabia do temperamento do estilista que idealizara aquela peça. Ele jamais a perdoaria por tê-la destruído, menos ainda no dia em que pretendia expô-la como a grande sensação do desfile.

Não seria menor a humilhação que passaria perante as outras modelos. Sequer tinha argumentos para advogar em sua causa. Rasgara aquele vestido porque cometera o maior pecado que uma modelo poderia cometer – engordara.

Disfarçara o quanto pudera. Evitara ficar em trajes menores diante das outras a fim de que não notassem o seu corpo mais cheio. Inútil. Elas já deviam estar desconfiadas. Uma delas, inclusive, havia feito uma insinuação em forma de piada.

Indiferente ao seu drama, o desfile se inicia lá fora. Todas as modelos já estão perfiladas em frente a escada de acesso à passarela. Ela receberá a deixa para entrar por último, tática usada pelo estilista para causar maior suspense na plateia. O vestido que usa é a peça principal da coleção; falava-se pelos corredores que o estilista passara meses idealizando-o.

A fumaça produzida pelo gelo seco invade a passarela, criando uma atmosfera de mistério e, assim que se dispersa, a primeira modelo sobe, cadenciando o movimento do corpo. Seu rosto impassível lembra os dos manequins de cera das vitrines.

Josephine aguarda o momento de sua chamada. Pensa em fugir, mas não pode sair do camarim sem ser vista. Poderia, então, tentar explicar-se, buscar benevolência, compreensão. Entretanto, com o número expressivo de moças que tentam ocupar seu lugar, é pouco provável que lhe seja dada uma chance de explicação. Tais moças, com as medidas rigorosamente nos padrões, são capazes de qualquer coisa para terem uma chance de brilhar. Todas elas sonham subir as passarelas um dia e desse modo obter fama, sucesso e muito dinheiro.

Entretanto, o descarte também faz parte da carreira de uma modelo. Como qualquer produto, estão sujeitas a serem substituídas logo que se desgastem ou se tornem desinteressantes.

As modelos expõem o segundo traje da noite. Em breve, Josephine será chamada para sua entrada triunfal e única.

Ela permanece dento do camarim, a porta semiaberta, olhando o desenvolvimento do desfile, contando os minutos que lhe restam, temendo ouvir a deixa para sua entrada.

Nesses momentos que antecedem a sua desdita, antevê o futuro como um filme. Primeiramente, os contratos cancelados e o fechamento de todas as portas; depois, o retorno.

A mãe recebendo-a com o semblante de quem constata a vitória da experiência, a confirmação dos conselhos e das imprecações. E proferindo as mesmas recriminações banais. Ela sofrendo com a certeza de que se voltasse no auge da fama a acolhida seria diferente. A mãe seria, então, cúmplice de seu audacioso projeto, de sua ousada tentativa de romper o círculo em torno do horizonte pequeno e destacar-se para o mundo.

Resta-lhe saber o que levará da vida de glamour. Que significa, finalmente essa vida? Luzes, brilho, imagens. É para os outros uma imagem? Uma imagem nas capas de revistas, uma imagem na tela da televisão. Uma imagem que precisa ser alimentada continuamente de seu caráter ilusório. Sendo assim, nada poderá levar que pertença a esse mundo. A partir do momento em que se desligue dessa imagem, será apenas um ser comum, semelhante aos outros, semelhante, até, a sua mãe.

Do corredor vem a chamada inevitável. Ela respira fundo, sente-se suspensa no ar, não sente o próprio corpo. Nesse momento não há passado, não há futuro, só o receado presente.

Num estado de transe, dá alguns passos a caminho da escada. Não sabe por que caminha. Sente-se absolutamente indiferente em relação ao que vai fazer, mas seus pés se movimentam e ela vai subindo, degrau a degrau.

A plateia está em silêncio; ouve-se, ao fundo, uma música de tom exótico. Há uma excessiva claridade na passarela. Ela preferiria que tudo fosse escuridão. Os flashes das máquinas fotográficas começam a disparar antes mesmo que ela suba o último degrau.

E, logo, sem saber como chegou até ali, está sobre a passarela. Uma brisa fria lhe penetra no corpo pela extensão do vestido rasgado. Como uma vítima que olha para o algoz, ela lança um olhar de relance para o estilista. Ele parece estupefato.

Ela continua desfilando mecanicamente, julga-se ensandecida. Mas a plateia, num único gesto, transforma tudo. Aplaude vigorosamente, está embevecida, o que vê é deslumbrante.

O estilista é aclamado e sobe a passarela para receber os aplausos pela absoluta originalidade do modelo.   


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

MEMÓRIAS DE ADORAÇÃO AO FOGO

                                                                                            Lucilene Gomes Lima 


Você não imagina como essas cenas da minha infância ainda estão vivas em minha memória. Lembro-me como se fosse hoje. Parece até que minha velha avó está me olhando com aquele seu jeito de deixar qualquer um amofinado. Se eu tinha medo dela? Claro que tinha.

Ela sempre me levava para o roçado nos dias em que ia fazer a coivara a fim de preparar a terra para a plantação de tabaco. Fazia uma grande fogueira. Uma coisa imensa para os meus olhos de criança. Eu passava um longo tempo a olhar para o fogo. O que via nele? Muitas coisas. Era superior e soberano como a minha avó. Pra mim, representava o mesmo que ela. Causava temor e admiração.

Minha avó era especialista em beliscões. Você acredita que eu ainda me lembro da dor intensa dos beliscões que ela me dava quando me recusava a tomar banho? Nunca lhe respondia malcriações, mas no meu pensamento eu a praguejava com os palavrões mais feios do mundo.

Depois, eu tinha remorso, ficava pensando se não era pecado desejar coisas tão feias para a minha avó. E ela sempre dizia que criança malcriada o diabo levava. Acho que era por isso que quase todas as noites eu sonhava que o diabo queria me levar. Como era o meu sonho? Era uma aflição danada. Parece que tudo estava acontecendo de verdade.

Você sabe como é a imagem do diabo? Num dos meus sonhos, ele apareceu com cabeça e patas de bode, pernas negras, escamas verdes, asas azuis, cabeça vermelha. Bicho pavoroso. Tinha uma força fora do comum.

Disse que ia me levar e começou a me arrastar. Eu me debati. Empreguei toda a resistência que pude para me soltar. O bicho não desistiu e tanto fez que...

Você ouviu? Esse é o meu neto, Quinzinho. Nunca sabe encontrar nada sem a minha ajuda. Aguarde um pouquinho que eu vou terminar de lhe contar como acabou o sonho.

Pronto. Já estou de volta. Em que parte eu parei? Isso mesmo. Você lembrou bem. Quando o diabo queria me levar.

Como estava contando, o bicho tinha vencido e já estava me levando para o inferno com ele, mas, nesse momento, sabe quem apareceu? Não, não foi Deus. Mas foi como se fosse.

Exatamente. Foi a minha avó. Ela apareceu toda de branco, cercada por chamas de fogo brilhantes, segurando uma cruz, e não sei com que forças me arrebatou das garras do monstro e me salvou.

Rezei muito quando acordei e venerei minha avó como se fosse santa. Depois que voltei a sentir a dor de seus beliscões, esqueci o sonho e tornei a desejar-lhe mal.

Não demorou muito e eu tive o mesmo sonho em que o diabo aparecia querendo me levar. Você já deve estar se perguntando se a minha avó me salvou. Isso eu conto depois. Primeiro, preciso contar toda a aflição que passei. Desta vez o sufoco foi maior.

Ao ver o bicho se aproximando, eu tentei escapar. Não consegui. Os meus pés não se moviam do chão. Eu não tinha forças para movimentar nenhum músculo do meu corpo. O que fiz? Fiquei parada e rezei. Rezei todos os pedaços de orações que eu sabia. Acho que rezei até coisa que nem era oração. Naquela hora, eu tinha de rezar qualquer coisa. Não teve reza que fizesse o bicho parar...

Está ouvindo? É o menino de novo. Espere só mais um pouquinho que eu vou saber o que ele está querendo.

Você está vendo como essas crianças dão trabalho? Bom, agora eu posso terminar de contar o sonho.

Como eu dizia, o bicho ia me dominar com suas garras quando, de repente, uma coisa muito estranha aconteceu. O bicho tinha se transformado na minha avó. Eu fiquei confusa. Achei que aquilo era uma arte do demônio para me iludir. Não era. Era a minha avó mesmo, e foi ela quem mais uma vez me salvou.

Passei a ter menos medo de sonhar com o demônio, confiando que minha avó sempre me salvaria. No mundo real, a história era diferente. Eu sempre a temia e até a odiava porque me aplicava castigos cruéis.

Uma noite, eu sonhei que o diabo saía das labaredas do fogo para me pegar. Tive medo. Esperei minha avó chegar para me salvar. Ela veio. E quando os dois se enfrentaram cara a cara...

Mas esse menino está-me chamando outra vez! Eu volto já.

Será que demorei muito? Você está ansioso para saber como acabou o sonho? Parei quando o diabo e minha avó estavam se enfrentando, não foi?

Você deve estar pensando que minha avó expulsou o diabo e mais uma vez me salvou. Não foi tão simples assim. De repente, diante dos meus olhos, os dois se juntaram num só corpo. Uma parte era a minha avó, outra era o diabo. Então, ficaram me puxando de um lado e de outro. Se eu me deixasse levar por minha avó, também acabava sendo levada pelo diabo. Lembro claramente desse momento de agonia, mas não lembro no que foi que resultou. Por que não me lembro? Ora, porque nesse momento eu acordei.  

* Publicado originalmente em O mestre e o discípulo (2000)

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

TUDO QUE ERA SÓLIDO CONDENSA-SE NA NUVEM


                                                                                          Lucilene Gomes Lima


 Em Manaus: amor e memória (2004), Thiago de Mello testemunha que os objetos naturais e os objetos e ritos culturais criados por nós, seres humanos, constituem um ritmo próprio na incipiente vida urbana do município de Manaus na primeira metade do século XX. Em sua lembrança afetiva da capital do Amazonas, o poeta relata que conversas se iniciavam em todas as ruas tão logo anoitecia. As frentes das casas, as calçadas recebiam cadeiras de embalo e os habitantes contavam histórias, falavam da vida cotidiana na década de 1930. Outro hábito comum à época eram as sestas diurnas, que ocorriam quando os trabalhadores chegavam às casas para o almoço. Depois de dormir aproximadamente quinze minutos ou meia hora, voltava-se ao trabalho. A sesta não era exclusividade da população local, os trabalhadores estrangeiros também adotavam o hábito. A soneca tinha momento, mas não tinha lugar, podia-se deitar na relva, recostar-se nos troncos das árvores. Diferentemente do que ocorre hoje em dia, em que a vida urbana eliminou a razoabilidade dos hábitos, usava-se chapéu para se proteger do sol e roupa branca para atrair menos calor. A sociabilidade urbana era também muito diferente ou, talvez, deva-se dizer, ela existia. Os vizinhos se conheciam, as casas não eram tão fechadas nem precisavam de grades. Thiago conclui que “[...] o forte da cidade não era a criminalidade, mas a cordialidade” (2004, p. 52). A morte era um espanto porque não era rotineira.

Na Manaus evocada pela lembrança do poeta, os sons urbanos (do apito das fábricas e dos barcos, das serrarias, da usina de luz, das badaladas dos sinos das igrejas, do pregão e dos instrumentos improvisados que usavam os mascates para vender especiarias e de tudo um pouco – linhas, agulhas, botões, morins, chita, brilhantinas, pó de arroz) marcavam as horas do dia e ligavam-se à vida pacata e rotineira, gravando-se na memória, revelando um modo de viver, ser, existir.

Assim como os sons, os cheiros evocam lembranças: o odor da defumação do látex, das madeiras cortadas nas serrarias, exalando aroma de pau rosa, preciosa, cedro: “[...] o cheiro delas ficava nas serragens e não era sempre o mesmo. Era um com o sol, era outro depois da chuva [...]” (2004, p. 82). Os cheiros dos alimentos também constroem a memória. O aroma dos mingais, tomados no mercado Adolpho Lisboa aos sábados e domingos, e das especiarias que os temperavam, o cheiro da tartaruga e da pimenta murupi que acompanhava o guizado e o sarapatel do quelônio, os odores e sabores do cupuaçu, da sapotilha, do jatobá e o cheiro das mariranas que costumava exalar quando as árvores se carregavam de frutos. O cheiro da moagem e da torrefação do café no moinho da cidade. O poeta lembra que o cheiro dos produtos importados vendidos em algumas casas da cidade, tais como camarões, bacalhau, figos, maçãs faziam a felicidade dos que podiam ao menos aspirá-los, uma vez que nem todos podiam comprá-los. Thiago também não se permite deixar de louvar a arquitetura cabocla, a qual denomina “sobradinhos de madeira”, autênticos e condizentes com o espaço, construídos com matéria prima e criatividade local, ao contrário dos casarões e sobradões de inspiração europeia, construídos à época do ciclo da borracha, geralmente com material importado (pedras, mármores, telhas, vidraças, azulejos, gradis).   

A importância da relação entre sujeito e objeto para a memória humana é ressaltada por Ecléa Bosi: “O relógio da família, a medalha do esportista, a máscara do etnólogo, o mapa-mundi do viajante. Cada um desses objetos representa uma experiência vivida. Penetrar na casa em que estão é conhecer as aventuras afetivas de seus moradores” (Memória e sociedade: lembrança de velhos, 1994, p. 441). Quando objetos e espaços físicos são destruídos, com os escombros também se enterra a memória. Os sujeitos se sentem descartados juntamente com os objetos, os lugares que são partes de suas vivências e de sua história.  Diz ainda Ecléa: “[...] o desenraizamento é uma condição desagregadora da memória: sua causa é o predomínio das relações de dinheiro sobre outros vínculos sociais [...]” (1994, p. 443). Os objetos biográficos que criam a sensação de enraizamento tornam-se objetos de consumo. Ecléa vislumbra um “mapa afetivo, sonoro” nas lembranças dos sujeitos testemunhas que entrevista. Identifica uma memória sensorial que marca o humano: “A substituição do trem e do bonde pelo ônibus mudou a paisagem sonora para os ouvidos de d. Risoleta: ‘O trem de Santo Amaro entrava numa mata virgem e ia: Tendendém, tendendém! Dentro da mata... Depois foram tirando tudo, tiraram o bonde e puseram ônibus, se vê como é que está’ ” (1994, p. 445).

Partindo de uma frase expressa no Manifesto comunista, escrito por Marx e Engels, Marshall Berman desenvolve o argumento de seu livro, publicado em 1983, “Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade”.  O autor denomina o Manifesto como arquétipo de um século inteiro de manifestos e movimentos modernistas que se sucederiam. Para Berman, o Manifesto “[...] pode esclarecer especificamente a relação entre a cultura modernista e a cultura e a sociedades burguesas [...]” (1986, p. 89). O autor destaca que a classe burguesa toma para si a tarefa de mudar o mundo. Os membros da burguesia capitalista “[...]fariam o mundo em frangalhos se isso pagasse bem. Assim como assustam a todos com fantasias a respeito da voracidade e desejo de vingança do proletariado, eles próprios, através de seus inesgotáveis empreendimentos, deslocam massas humanas, bens materiais e dinheiro para cima e para baixo pela Terra e corroem e explodem o fundamento da vida de todos em seu caminho [...]” (1986, p. 98). Berman também destaca que a burguesia é a classe dominante mais violentamente destruidora de toda a história.  Aponta, segundo a análise de Marx no Manifesto, que na cultura moderna assim como na economia burguesa convivem revolução permanente, desenvolvimento infinito, perpétua criação e renovação em todas as esferas da vida e sua antítese: destruição insaciável, estilhaçamento, destruição da vida (1986, p. 100).   

A modernidade, conforme analisa Berman, baseado nas transformações culturais, na percepção de escritores e artistas, traz a ideia do novo como valor premente. Não somente prédios, ruas são postos abaixo. Uma febre de mudança transforma tudo em obsoleto. Quaisquer objetos podem decretar a inutilidade daqueles que os antecederam. A onda avassaladora da inovação é, muitas vezes, apenas para a proclamação do novo. Essa veneração pela novidade é captada por Ecléa Bosi, quando afirma [...] os objetos protocolares são os objetos que a moda valoriza, não se enraízam nos interiores, têm garantias por um ano, não envelhecem com o dono, mas se deterioram [...]” (1994, p. 441). Os grandes monumentos construídos pela classe burguesa, celebrados efusivamente nos movimentos vanguardistas e por artistas no século XX, os enormes portos e pontes, infindáveis bulevares, os arranha-céus são espetáculos de grandiosidade para os olhos. Como lembra Berman, são desmantelados pelas próprias forças que os celebram (1996, p. 98). São sólidos que, a vista de um novo empreendimento, podem se desmanchar no ar. O autor ilustra que a mudança na estrutura urbana, no século XIX, modifica os seres humanos em seus hábitos e modos de agir e perceber o mundo: “O homem, na rua moderna, lançado nesse turbilhão, se vê remetido aos seus próprios recursos – freqüentemente recursos que ignorava possuir – e forçado a explorá-los de maneira desesperada, a fim de sobreviver. Para atravessar o caos, ele precisa estar  em sintonia, precisa adaptar-se aos movimentos do caos, precisa aprender não apenas a pôr-se a salvo dele, mas a estar sempre um passo adiante. Precisa desenvolver sua habilidade em matéria de sobressaltos e movimentos bruscos, em viradas e guinadas súbitas, abruptas e irregulares – e não apenas com as pernas e o corpo, mas também com a mente e a sensibilidade.” (1986, p. 154).

Tudo o que é feito pelos seres humanos tem mudado a vida no planeta a cada século, a cada década. Assim como os bulevares mudaram o tráfego e arrastaram em sua poeira uma série de tradições, impondo outro modo de vida, as coisas têm mudado sensivelmente o modo de viver e a nós mesmos. Mudamos a natureza, criamos novos objetos e esses novos objetos criaram novos seres humanos. Pela primeira vez na história, as coisas que nos servem e das quais nos servimos perdem sua materialidade. A era moderna trouxe a urgência de destruir ou fragilizar para reconstruir, mas no século XXI importa menos reconstruir do que reduzir a própria materialidade das coisas. Num determinado período de nossa história recente, em que as coisas eram reconhecidas por sua solidez, a percepção das pessoas era contrária a de agora, fornecida pelos meios eletrônicos digitais. Na primeira projeção cinematográfica, o público não percebeu a diferença entre a realidade expressa por imagens em uma tela e a realidade objetiva, por isso, os espectadores assustaram-se ao ver um trem direcionar-se a sua frente, como se pudesse transpor o objeto de projeção e atingi-los.

Vivemos numa era que caminha cada vez mais para uma superestrutura englobante. O advento da internet funde entretenimento, conhecimento, informação e comércio numa só rede. Quando ocorre tal consórcio, rompem-se as fronteiras espaciais e temporais. O leitor que ia a uma biblioteca encontrava-se num espaço cercado somente de livros, o silêncio era a condição para se estar e permanecer num salão de leitura, enquanto para navegar em aplicativos não se tem qualquer pré-condição que não seja um aparelho conectado, o qual pode ser usado em qualquer lugar e a qualquer hora, inclusive no barulhento espaço urbano. A navegação na rede também inclui a mensagem publicitária intrusiva, ausente no espaço das bibliotecas e no conteúdo dos livros. Em nenhum outro momento da história uma fonte difusora possui tantos produtos e serviços acoplados. Um único aparelho, o telefone celular, comporta em seus aplicativos de dados tv, rádio, cinema relógio, calculadora, calendário, espelho, telefone, telex, fax, revistas, livros, jornais, câmeras fotográficas e filmadoras, bancos para operações financeiras, dinheiro para compra de produtos e pagamentos de serviços, música, relações  sociais e culturais virtuais, uma infinidade de coisas antes palpáveis e, de certa forma, controláveis, agora ao alcance apenas num toque de tela.

O telefone celular passou a ser, mais que um objeto utilitário, um objeto protocolar, valorizado pela moda, pela neurose do novo. Apesar de divinizado pela gama de possibilidades que oferece, o aparelho é constantemente descartado e reposto para acompanhar o avanço tecnológico, diferentemente dos objetos biográficos que envelhecem com os donos, conforme observa Ecléa Bosi: “Só o objeto biográfico permanece com o usuário e é insubstituível” (1994, p. 441). Os “objetos desmaterializados”, em oposição aos objetos biográficos, apenas nos servem, sem fazer parte de nossa vivência. Podemos trocar digitalmente milhares de mensagens, sem que elas sejam mais do que “curtidas”, consumo de comunicação. As mensagens, como também a própria relação na rede digital, são de hospedagem.

Várias relações sociais, tanto quanto objetos tornaram-se efêmeros na era digital. Nada é para reter ou guardar, mas usufruir e descartar. As fotos digitais em meios eletrônicos não representam a experiência vivida, como as fotos físicas de álbuns igualmente físicos, lembranças de momentos especiais, comemorações, viagens. A foto captada hoje imediatamente é descartada devido à quantidade e à banalidade. Em lugar da experiência, passa a valer o simultaneísmo do compartilhamento e a privacidade anula-se no click, no zoom. A era digital cunhou a expressão selfie, que não é propriamente uma fotografia, mas um espelho. A mudança em relação à fotografia convencional é que passamos a ser imagem e espectadores de nós mesmos, ou seja: vemo-nos no ato de nos fotografar. A visão especular também ocorre na transmissão de vídeo ao vivo. Numa conversa on line, vemos o outro, o outro nos vê e cada um vê a si próprio, é, portanto, uma transmissão em espelho. Há uma mudança profunda na relação sujeito-objeto, que vai deixando de ser tangível, quanto na relação sujeito-sujeito que se virtualiza.

Gerações crescidas com telas já não se satisfazem com materialidade. Nos museus, a importância física dos objetos expostos é menor para essas gerações que preferem as exibições holográficas, os pixels que se projetam e se movimentam nas paredes intermitentemente, obliterando as sensações prolongadas, duradouras e contemplativas.

Ecléa Bosi narra que a memória se apoia em coisas sólidas, como a calçada efetivamente pisada, onde outros também imprimiram seus passos, sua presença e vivência. Essa noção de que a memória é constituída pelas sensações que obtemos da concretude das coisas é a mesma de Thiago de Melo ao lamentar o desaparecimento da praça da estação dos bondes em Manaus, juntamente com os objetos que a compunham – calçamento de pedras, plantas, árvores. Para o poeta, a presença material condiciona a memória: “Minha memória trabalha com a matéria de um tempo que o próprio tempo comeu. Como é que era esse tempo?” (2004, p. 4). Sem a solidez das coisas, a memória passa a contar apenas com a capacidade cognitiva de lembrar.

Com o avanço tecnológico, o mundo vai se enchendo de objetos sem funcionamento tanto porque dependem de peças de manutenção que não mais se fabricam quanto porque sua forma de difusão ou transmissão se torna obsoleta. Os dados em nuvens dos servidores de internet podem ser armazenados fora de computadores e celulares, o que torna esses objetos também equipamentos vazios. Os dados em nuvem significam uma rede global de servidores conectados. Enquanto todas as informações na rede se alojam nas nuvens, tornando desnecessários os registros físicos e as memórias em discos rígidos de equipamentos, o sistema de datacenter onde os dados são armazenados, depende de condições físicas determinadas para existir, como um espaço geográfico com temperatura amena, e um sistema de energia permanente.

A perda da materialidade significa mais que um avanço sem precedentes para a humanidade. Pode significar que, se as coisas não estão mais sob o controle de nossas mãos, perdemos o controle sobre nós mesmos e nossas vidas. Os arquivos colocados na nuvem só podem ser acessados através da rede, deixam de ocupar espaço num aparelho físico que, aparentemente, nos pertence, livrando a memória desse dispositivo e a memória humana de seu sentido de concretude.