Isaac Warden Lewis
No mês de abril
de 2026, foram exibidos pela TV Cultura de São Paulo programas de extrema
importância para a sociedade brasileira. Primeiramente, no dia dezenove, foi
exibido o documentário Xingu conexão
ancestral Tókio, demonstrando as identificações entre a arte japonesa e a
arte dos povos nativos da sociedade brasileira, no caso, os povos do Xingu. O
programa evidenciou que as pinturas e as esculturas produzidas pelos orientais,
particularmente pelos japoneses, assim como suas relações culturais com a
natureza, possuem ligações ancestrais com a arte e a cultura produzidas pelos
povos do Xingu. Isso já foi estudado e demonstrado por arqueólogos e
antropólogos brasileiros e internacionais.
No dia vinte e
um de abril, o programa Roda Viva
entrevistou o escritor Daniel Munduruku, que ministrou uma aula muito
instrutiva sobre a vida e a cultura do povo Munduruku. Daniel nasceu em 1964,
no Pará, fez vários cursos universitários, entre os quais Literatura e
Filosofia. Publicou mais de 70 livros e continua escrevendo. Os livros são
voltados para seus parentes e para jovens e crianças de nossa sociedade.
Estranhamente os membros da Academia Brasileira de Letras nunca o convidaram
para que ele fizesse parte dessa importante instituição. Isso me fez lembrar
que a brasileira Giselda Laporta também nunca foi convidada para fazer parte
dessa academia. Isso indica que essa academia menosprezou a sabedoria das
mulheres e dos povos originários. E por falar nisso, por que será que nos
nossos tribunais de justiça, nas assembleias legislativas e no Senado não temos
afro-brasileiros e nativos nos representando? Por que será que esses indivíduos
são premiados e consagrados em países que fundaram repúblicas democráticas e os
brasileiros que se julgam europeizados não adotam medidas avançadas nas
academias, nos tribunais e assembleias legislativas?
A propósito, muitos de nossos nativos
desenvolveram conhecimento através da oralidade, o que também me fez lembrar
que certos literatos costumam citar o filósofo Sócrates, o qual se comunicava
através da oralidade. Aliás, no mundo antigo a principal forma de comunicação
era a oralidade. No caso de Sócrates, além de se comunicar oralmente com seus
interlocutores, ele criou um método de investigação, a Maiêutica, questionando
continuamente seus interlocutores, obrigando-os a revelar sua ignorância. Isso também
me faz lembrar que em 1993 os doutores da USP questionaram os professores da
Universidade do Amazonas por criar um curso de filosofia em São Gabriel da
Cachoeira – AM, demonstrando ignorância e preconceito. Essa situação ainda me
faz lembrar uma experiência de Helen Keller, norte-americana, cega e
surda-muda, educada por uma cuidadora, Anny Sullivan. Um dia, ela estava em
casa e recebeu a visita de uma amiga a qual resolveu andar pelos bosques nas
proximidades. Na volta, Helen perguntou se ela havia visto alguma coisa
interessante. A amiga, com dois olhos, dois braços e duas pernas, como relatou
Helen Keller, respondeu que não vira nada de interessante. Todos nós,
brasileiros universitários, devemos ler os livros de Hellen Keller, de Giselda
Laporta e de nosso compatriota Daniel Munduruku.
É hora, ou
melhor, já passou da hora, desse país que se diz abençoado por deus, o que é,
evidentemente, uma falsidade medieval, fazer reformas realmente inclusivas na
sua Constituição e implantar uma república verdadeira, não uma republiqueta de
vassalos.
Falar em dia do
índio é um equívoco porque não existe índio no Brasil tampouco indianos. O que
existe são povos Mura, Parintintin, Tucano, Dessana, Baniwa, Maku, Guarani,
Tupi-guarani, Tupinikim, Tupinambá, Tamoio, Krenak, Munduruku, além de muitos
outros que estão nesse território há mais de dez mil anos. No norte do Brasil,
havia os Manaú que organizaram uma luta sob o comando de Ajuricaba o qual
recebia armas dos holandeses que desciam o rio Negro até Manaus. Havia também
os Mura que empreenderam lutas contra os invasores portugueses e espanhóis. No
Amazonas há ainda hoje os Waimiri-atroari que sofreram perdas de vidas durante
a construção da Transamazônica. Por isso não bastam desculpas. A sociedade
brasileira deve indenização a esses nativos também. Do Brasil saíram os
Tupinambá que foram para o Caribe e também saíram os Caribe, que foram para
aquela região. Quando os ingleses chegaram em Barbados, encontraram os Caribes
e os Tupinambás. No sul do país, os Guarani sofreram muitas perdas também
quando os “gloriosos” bandeirantes paulistas
invadiram o território guarani e sequestraram nativos em São Paulo.
Houve um momento em que os jesuítas espanhóis que tratavam os nativos com
respeito e consideração resolveram relatar os crimes covardes dos bandeirantes
paulistas e solicitaram apoio da Espanha, que os autorizou a usar armas contra
os paulistas. Os jesuítas fabricaram armas e ensinaram os nativos a usá-las. Os
paulistas chegaram a aldeia para sequestrar mais nativos e foram recebidos à
bala. Surpresos, fugiram do local, deixando alguns mortos. Resolveram seguir em
direção ao Mato Grosso e Goiás para procurar garimpo e ouro e muitos morreram
pelo caminho. Os que chegaram a uma aldeia encontraram ouro e resolveram descer
o Tapajós para chegar a Belém. Pretendiam solicitar do governo da província
autorização para explorar as minas que encontraram na aldeia dos nativos Tapajós.
O governo demorou a autorizar a expedição dos paulistas. Ele não tinha autorização
da Coroa portuguesa, mas o governo foi autorizado a permitir a exploração das
minas dos nativos tapajós, sendo que o governo deveria acompanhar e autorizar
as ações dos bandeirantes. Eles partiram para Goiás. Logo a seguir, uma
comitiva do governo paraense seguiu para Goiás para fiscalizar o trabalho dos
bandeirantes paulistas. Quando a comitiva paraense chegou a Goiás, encontrou os
bandeirantes mortos. Os indígenas os assassinaram e se retiraram para local
desconhecido. A comitiva paraense nada pode fazer e retornou a Belém. Tudo isso
está relatado no livro “...E o branco chegou com a cruz e a espada”, de José
Oscar Beozzo. Outro livro importante para conhecermos o país em que vivemos. Minha homenagem póstuma a Márcio Sousa, Tiago
de Mello, Arthur Engrácio que escreveram sobre a realidade de nativos que
conviveram com judeus, turcos, quilombolas, libaneses, argelinos. A sociedade
brasileira é multirracial e isso é motivo de orgulho. Não precisamos ir para
países que adotaram falsa democracia e falsa república, incapazes de assimilar
as lições dos revolucionários da Revolução Francesa e se orientaram por visões
medievais.
Por fim, fica evidenciado
por tudo que foi explicitado sobre a ocupação dos nativos no território
brasileiro que eles ocuparam esse território há mais de dez mil anos e cuidaram
bem da natureza desse território. A sabedoria milenar desses povos pode ser
comprovada pela declaração de um nativo por ocasião da última enchente no Rio
Grande do Sul, quando um jornalista perguntou a um nativo se as águas não
invadiam sua residência e ele respondeu que seus parentes não construíam suas
casas em terra baixa, no caminho das águas, construíam nas partes altas ou
debaixo do caminho das águas e construíam cavernas para se abrigarem. Mostrou
as cavernas construídas por eles debaixo do caminho das águas. Salve o dia dos
nativos – 19 de abril.


