quarta-feira, 27 de maio de 2026

DE FLI EM FLI: A ENCRUZILHADA DOS AUTORES DEPENDENTES DE VALORIZAÇÃO

                                                                                                                      Lucilene Gomes Lima



Gabriela_albuquerque_feiras (instagram)
(7.11.2025
                                                                                     

Algumas feiras literárias têm acolhido, sob a denominação de independentes, os autores que publicam por conta própria. Reconhecendo que esses autores necessitam de um público (leitor), um pequeno percentual dessas feiras oferece o tempo exíguo de uma hora para que os autores lancem suas obras e as autografem. Porém, que sentido há para os leitores ou frequentadores de feiras e festas literárias os autógrafos de desconhecidos, uma vez que um autógrafo faz parte do sentido de fama e, que, não por outro motivo, um autor desconhecido é gentilmente ignorado quando ao seu lado está um escritor que já é conhecido do público? O autor independente e neófito tanto quanto o autor que adquiriu prestígio, deseja encontrar leitores e busca também a interação entre autor e leitor.

Apesar dos fatos elencados acima, existem autores que argumentam que não há competição entre autores: “É um erro comum entre escritores pensar que estamos competindo entre nós mesmos. Em vez disso, é o livro, enquanto tecnologia, que concorre com o fluxo de informações das redes e do streaming [...]” (Borges, 2023, Online). Para entendermos e questionarmos a profundidade dessa afirmação, é preciso considerar dois pontos: quais os precedentes históricos da leitura no Brasil e em que nível esses precedentes se situam em relação ao evento de acesso aos recursos digitais. Como destacam Marisa Lajolo e Regina Zilberman, em A leitura rarefeita (2002), apesar de a Coroa portuguesa haver autorizado a utilização de prelos no Brasil, durante o século XIX, uma cultura letrada estava muito aquém de se desenvolver, pois não havia instituições tais como escolas, livrarias e editoras que possibilitassem a difusão de materiais impressos. Mais grave ainda, segundo informam as autoras, era a falta de familiaridade da população com a leitura e o desconhecimento de qual era seu fim, se não o religioso. O quadro geral da falta de escolas não foi impedimento para que, na Constituinte de 1824 se propusesse a criação de universidades, num contexto em que sequer havia material didático. Somente com a inauguração do Colégio Pedro II e de algumas outras escolas na Corte, os livros didáticos deixaram de ser raros. Cumpriu-se oficialmente no país a criação de algumas instituições culturais e de ensino, como o Gabinete Português de Leitura, a Biblioteca fluminense e o Ginásio Científico-Literário Brasileiro sem que houvesse, de fato, bases sólidas para práticas de leitura e escrita da maioria da população brasileira.

Os problemas da leitura no Brasil (falta de condições estruturais, formação deficiente, desincentivo à leitura crítica e científica em prol da leitura catequética e devocional) persistem ao longo dos séculos. Na pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, realizada em 2024, com 5.504 brasileiros alfabetizados e não alfabetizados em 208 municípios apurou-se que 53% dos entrevistados não leu nenhum livro impresso ou digital no período de três meses anteriores à consulta, revelando um quadro ainda precário de nossa formação letrada, com contradições inegáveis. A pesquisa enfocou como leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital e como não leitor aquele que declarou não ter lido nenhum livro ou parte de um livro nos últimos três meses anteriores à pesquisa. O recorte, portanto, pretendia evidenciar a frequência de leitura dos brasileiros. Em percentuais, 53% dos entrevistados se declararam não leitores e 47% leitores. A amostra também registrou a escolaridade e a classe social dos entrevistados, sendo que 6% eram não alfabetizados ou não frequentaram a escola normal, 17% cursaram o ensino fundamental I (1º ao 5° ano), 23% o Fundamental II (5ª A 8ª série ou 6º ao 9° ano), 3% o Ensino Médio (1º ao 3º ano) e 18% o ensino superior. Quanto às classes, 27% eram das classes D e E, 35% das classe A e B e 60% da classe C. A faixa etária do público foi de 6% entre cinco e dez anos, 23% entre 59 a 69 anos, sendo a média de 37 anos. Os 47% que se declararam leitores leram livros em geral, mas somente 27% leram livros inteiros; 40% leram apenas em partes; 12% disseram ter lido livros indicados pela escola. 47% leram por vontade própria; 22% leram por vontade própria a Bíblia; outros 22% leram por vontade própria literatura. Os percentuais de leitores que estavam estudando e que não estavam são relativamente próximos. Contrariando a expectativa de que a escola estimula a leitura, 56% dos entrevistados estava estudando, contra 57% que não estava. A motivação para a leitura que a pesquisa registrou é fragmentada – o maior percentual, 24%, diz ler por gosto, ficando outros motivos como distração, atualização de conhecimentos gerais e crescimento pessoal em índices mais baixos. A leitura para atualização profissional teve o mais baixo desses índices, apenas 6%, inferior inclusive ao índice da motivação religiosa, que foi de 8%. Correlativamente, a Bíblia foi o gênero mais lido entre os leitores acima de 18 anos, com percentual de 38%. Além disso, outros 17% também apontaram o gênero religioso como preferencial para a leitura, ficando o ficcional e o conhecimento técnico com menos da metade da preferência dos leitores.

A casa foi apontada como o lugar em que se costuma ler por 85% dos entrevistados. Apesar de parecer uma escolha lógica, é preciso considerar, nesse caso, o tempo disponível em casa, excluindo-se o tempo do trabalho fora de casa e a própria divisão do tempo em casa com outros afazeres ou responsabilidades e com atividades de distração e lazer. A escola foi apontada por 19% dos entrevistados como o local em que costumam ler e outros 14% apontaram a biblioteca. Em termos de aproveitamento de leitura e estudo, a biblioteca é um local mais apropriado do que a casa, uma vez que nela não há interrupções ou inadequações. Os próprios entrevistados consideraram essa adequação ao referirem a biblioteca como local mais apropriado para leitura.

A pesquisa registra a mesma falha estrutural recorrente na formação do público leitor brasileiro, uma vez que quase metade dos entrevistados (46%) disseram não haver na cidade ou bairro em que moram uma biblioteca pública, enquanto 74% disseram não haver uma biblioteca comunitária. Chama atenção ainda a atitude de não frequentar biblioteca, apontada por 44% dos entrevistados. Antes que se possa pensar que o problema é de acesso, a pesquisa registrou que apenas 13% destacou o problema da distância entre a biblioteca e sua casa como motivo para não frequentar, enquanto 39% disseram que nada os faria frequentar bibliotecas e 8% apontaram a preferência para que a biblioteca tivesse internet, ou seja, o espaço deixou de representar para esses leitores o contato com livros físicos. No tocante aos motivos para não ter lido nos últimos três meses anteriores à pesquisa, 43% dos entrevistados alegou falta de tempo. Por outro lado, 23% disseram não estar ocupados e mesmo assim não leram, 28% disseram não gostar de ler e outros 14% disseram não ter paciência. As justificativas como dificuldade, cansaço e preço caro foram gradativamente mais baixas, entre 6, 3 e 1% respectivamente, o que atesta, no recorte da pesquisa, que esses fatores não foram os mais impeditivos. Quanto àqueles que leram nos três meses anteriores ao enfoque da pesquisa, 47% alegaram não ter lido mais por falta de tempo, 28% afirmaram não ter lido mais por não gostar e 14% por não ter paciência para ler.  Desse modo, os motivos em percentuais entre os que não leram e os que leram são semelhantes e apontam um fator relevante: a não leitura por falta de gosto e a pouca leitura pelo mesmo motivo, ou seja: a leitura ainda é impositiva. Entre os motivos apontados como dificuldade propriamente dita para ler, 26% disseram não ter paciência, 18% disseram ler muito devagar, 15% disseram não ler por problema de visão, 14% de concentração e 8% disseram não compreenderem o que leram, porém 48% disseram não ter dificuldade nenhuma. No quesito gosto pela leitura, 43% dos entrevistados cursando ensino superior disseram gostar um pouco de ler e 26% disseram não gostar, evidenciando que mesmo nesse nível de ensino a leitura não é vista como prioritária. Quando o questionamento focaliza a faixa etária, os entrevistados na faixa de 14 e 49 anos que dizem gostar um pouco de ler atingem níveis percentuais de 42% a 50%. Os maiores percentuais dos que não gostam de ler, entre 29% e 37%, está nas faixas de 29 aos 70 anos ou mais.

Sobre a influência para a formação de leitores e desenvolvimento de gosto pela leitura, os entrevistados informaram que as mulheres da família influenciaram mais do que os homens, tendo peso tão importante quanto de professores, inclusive as mulheres não leitoras. Por outro lado, são altos os percentuais de mães e pais de leitores que nunca leram, sendo que para os não leitores a situação é ainda pior, atingindo índices de 61% entre as mães e 70% entre os pais. Essa estatística revela a instrução tardia dos brasileiros, corroborando todos os fatores que estão no início da estrutura escolar do país. Os percentuais de escolaridade dos pais apresentam índice de 15% de analfabetos, 5% de graduados e entre 5 e 6% de pós-graduados. Entre os pais analfabetos, 10% dos filhos são leitores em comparação com outros 19% que não são. Na escolaridade dos pais, se apresenta um diagnóstico: a escola é uma formalidade burocrática ainda hoje, não uma criadora de leitores, pois apenas 8% deles com graduação e pós graduação são leitores. O estimulo que pais, mães e parentes deram aos entrevistados para leitura é negativo, pois 57% disseram que pais e parentes nunca leram para eles. Nem mesmo na faixa etária do leitor entre 5 e 13 anos os pais costumavam ler para seus filhos. Um percentual de 53% dos entrevistados leitores disseram que isso nunca acontecia e 72% dos não leitores fizeram a mesma afirmação. Ainda assim, 44% dos entrevistados afirmaram que não gostariam que os pais lessem mais para eles. Entre os leitores, 49% disseram que nunca foram presenteados com livros, enquanto 76% dos não leitores fizeram a mesma afirmação. Entre os 37 livros que os entrevistados mais citaram estar lendo, a Bíblia estava em primeiro lugar, além de alguns livros de ficção, entre eles best-sellers traduzidos. Esses livros foram indicados por um professor ou professora, segundo 20% dos entrevistados, outros 19% disseram que foi por um amigo e 9% por um líder religioso, mas 23% disseram não ter recebido indicação de ninguém em especial. Entre as faixas etárias de cinco a dez anos, 53% tiveram as maiores indicações na escola.  A pesquisa de 2024 apresenta uma redução do percentual de leitores na série histórica da pesquisa, iniciada em 2007. A redução se deu tanto por faixa etária quanto por gênero, escolaridade, classe, renda e entre estudantes e não estudantes.

No que concerne ao acesso e à assiduidade ao meio digital, a pesquisa registra o quadro é outro. O Brasil é um dos líderes mundiais em tempo de exposição a telas. Em 2024, o brasileiro passou, em média, nove horas e meia por dia conectado à Internet. Desse tempo, dedicou quase quatro horas por dia às redes sociais.  Segundo, ainda, a mesma pesquisa, os percentuais dos que dizem gostar de usar a internet em seu tempo livre, assim como dos que se dizem usuários da rede, são bastante altos, respectivamente 77 e 88% dos entrevistados. Por outro lado, apenas 20% responderam que gostam de ler livros em papel ou digital em seu tempo livre. São também apontadas uma série de outras atividades, como jogar games, ir a bailes, fazer cursos, praticar esportes ou fazer atividades artísticas com percentuais mais altos do que a leitura. Assistir televisão teve um dos índices mais altos – 60%, assim como assistir filmes ou vídeos em casa e reunir-se com a família e amigos com percentuais entre 57%, 53% e 41%. Enquanto o percentual que disse gostar de ler livros é baixo, 41% disse gostar de escrever, como se não houvesse relação entre as duas ações. Dito em outros termos, escrever na rede prescindiria a leitura. O tempo livre dedicado à internet é considerável: 70% para o não leitor e 87% para o leitor. Quando a pesquisa focaliza a faixa etária, os percentuais aumentam progressivamente, de 60% até 91% entre os 18 e 29 anos, só reduzindo aos 70 anos ou mais. Nas mesmas faixas de 18 e 29 anos, o tempo livre empregado em jogar video game também tem percentual alto, só diminuindo igualmente à medida que a idade aumenta. O tempo livre gasto em internet é alto também por escolaridade. No fundamental II (correspondente às séries de 5ª a 8ª) é de 80%, chegando a 91% no nível superior. A pesquisa aponta que 30% faz uso da internet para ler livros, 61% para ler notícias e informações em geral, 59% para aprofundar conhecimento sobre tema de seu interesse, porém, 62% dos leitores nunca ouviu falar em livro digital. Entre os leitores que já leram livro digital, 75% leram no celular ou no smartphone. Apesar desse quadro que parece apontar uma prevalência de interesse em utilizar o meio digital, a pesquisa aponta que 83% dos leitores pesquisados leram o último livro em papel. Além da inadequação em termos visuais e de configuração, a leitura é muito mais dispersiva no meio eletrônico, sendo que 68% dos leitores pesquisados disseram que quando leem livros digitais interrompem mais a leitura para consultar mensagens no celular ou no computador, outros 53% disseram ser mais difícil se concentrar quando leem livros digitais. De forma geral, a leitura de livros físicos e digitais apresenta índices baixos em diversos níveis de escolaridade, inclusive no nível superior, onde atinge apenas 35%. Sobre o papel de influenciadores digitais, a pesquisa evidenciou que, no geral, apenas 2% dos leitores mencionaram a indicação de um influenciador digital, de um blog, das redes sociais ou do Youtube como motivador da escolha de um livro para ler. A atividade que 61% dos entrevistados passa mais tempo fazendo na rede é a de trocar mensagens no WhatsApp ou no chat da rede Facebook. Somente 6% mencionaram ler livros, sendo que apenas 1% disse ler livros em primeiro lugar. Esse dado contradiz o argumento de que o trabalho de divulgação e motivação na rede digital tem ampliado o público leitor e explica em parte a parcela de analfabetos funcionais que consome conteúdo sem análise e reflexão. O acesso ao meio digital foi viabilizado sem que a maioria da população brasileira tivesse desenvolvido, de fato, a compreensão e a capacidade do que é ler. Desse modo, o problema é mais estrutural do que de mudança de veículo. Não é apenas o meio digital que concorre com o livro físico; é a carência de compreensão, vivência e prática de leitura em seu sentido amplo. Aberto esse parêntese, voltemos ao autor independente e aos leitores no contexto de feiras e festas literárias.

A bandeira da inclusão tremulando pelas feiras e festas literárias que proliferam no Brasil oculta uma participação não equitativa entre os autores. Em primeiro lugar, os ditos autores independentes dependem, principalmente, de recursos para publicarem seus livros, para irem a feiras, apresentarem, divulgarem e venderem seus livros, pois encontram dificuldade de financiamento pelas editoras estabelecidas no mercado, dificuldade de venda em livrarias que cobram alto percentual de consignação, descompensando para os independentes o retorno dos valores investidos na publicação.

Muitos autores independentes se acomodam ao papel que lhes relegam as feiras e festas literárias. Não se solidarizam nem se organizam para questionar por que autores independentes e desconhecidos e autores conhecidos e prestigiados têm de ficar separados nesses eventos; por que há distintivamente uma alocação de espaço de visibilidade, a livraria, o estande, a instituição cultural pública, o auditório para os autores conhecidos e o espaço improvisado, quando há, para os anônimos e desconhecidos; por que o acesso à divulgação e contato com o público não é o mesmo para todos, sendo as rodas de conversa, as palestras reservadas aos autores conhecidos e prestigiados, enquanto aos desconhecidos cabe apenas o lugar na plateia ou nos corredores. O que faz o autor ser conhecido se não o acesso aos canais de divulgação e, logo, de ascensão, evidência e valorização?

Os “independentes” acolhidos para lançamento de suas obras não figuram na programação oficial dos eventos. Recebem o aviso de que devem divulgar seu lançamento entre amigos, parentes e conhecidos, ou seja: têm de se autopromover e agenciar como se não fizessem parte do evento que lhes está oferecendo a oportunidade. Só aqueles escolhidos como vedetes para o público têm seu flyer de lançamento anunciado pelo meio oficial de divulgação. A situação dos autores independentes faz pensar que o autor e o livro são veiculados como valor pecuniário mais do que cultural, são considerados valor de troca segundo sua cotação no mercado. No artigo “Desafios e vitórias; o caminho dos autores independentes na feira do livro de SP” (On line, 2025), a autora Susana Resende afirma: “Ser autor independente no Brasil ainda é um desafio [...]”. Em outro artigo “Mercado editorial brasileiro em 2026: crescimento de leitores, queda de títulos e os desafios da diversidade literária” (2026, Online), André Bodini faz um diagnóstico: “[...] a literatura independente continua sendo um universo à parte do mercado editorial tradicional, com distribuição mais limitada, menos recursos para marketing e visibilidade restrita a nichos específicos”.

A questão, logo, apresenta-se a partir da constatação de que os escritores independentes são postos à margem do mercado de publicação, distribuição, vendagem e, portanto, do universo provável de leitores. Deparam-se com barreiras sobre sua obra ser vendável, segundo critérios que nem sempre são os de qualidade, mas principalmente, de comércio e de massificação do gosto. O que é vendável no comércio de bens culturais nem sempre é qualitativamente melhor, mas, muitas vezes, o que pode ser quantitativamente vendável. Todos os segmentos da produção de bens culturais passam por esse crivo mercantilista e raso que avalia o vendável e o não vendável, independentemente da formação dos receptores desses bens.

Os autores reconhecidos pelo público que participam das feiras para promoverem e venderem seus livros usufruem do reconhecimento pelos sistemas de ensino, midiático e editorial. O critério analítico postula o reconhecimento e o valor, mas quem postula o valor de um autor independente que publica por conta própria é ele mesmo, desde que possa custear sua publicação, pois ela só será avaliada pelos leitores posteriormente. O meio “independente” agrega aventureiros, pessoas cujo status de se projetar como escritores, muitas vezes, atropela o esforço, o aprofundamento, o próprio estudo. Não é, em contrapartida, verdadeiro que o critério de publicação das editoras com renome no mercado seja sempre o mais especializado e de mérito indubitável. Esse meio da mesma forma agrega aventureiros. Há sob os grandes selos editoriais escritos que não valem a impressão nem a divulgação. Não é uma verdade inquestionável que todo mundo deve escrever, porém, todo mundo que escreve deveria ter consciência do que é escrever. Contemporaneamente o método da exibição se efetiva mais do que outros para que um autor possa ter visibilidade, apesar da resposta do público e de leitores, categorias distintas, não ser algo tão imediato.

O sistema econômico significa e resignifica os autores. Essa resignificação implica também reconhecimento. Foi o que aconteceu com Carolina Maria de Jesus, que não conheceu o ambiente programado, estandardizado, de interesse do mercado editorial, das feiras financiadas por verbas públicas e privadas, como também não conheceu as facilidades do mundo digital, dos fast foods das bienais ou a abundância de guloseimas das feiras, festas, festivais literários locais. Carolina sempre batalhou para colocar alguma comida em seu prato e de seus filhos, seu processo de escrevivência era um luxo que ela se permitia, seu encontro com os leitores através de sua obra foi tardio, na verdade, um encontro que ela não planejou.

Para que feiras literárias pudessem promover verdadeiros encontros entre autores, obras e leitores seria preciso democratizar os espaços, os tempos, dando oportunidade a uma maior parcela de classes, sujeitos sociais. Os autores acadêmicos ou midiatizados ganham cachê, custo de viagem, hospedagem, alimentação, possuem agentes, enquanto o autor desconhecido come as migalhas ou não come nada. Os eventos tornam-se espetáculos, com grande público, embora os leitores reais possam estar longe dos lucros do comércio e das grandes cifras de vendagem das bienais e feiras. Numa entrevista para Karla Maia, da agência UVA (Universidade Veiga Almeida), sobre a Bienal do Rio em 2023, intitulada “Escritores independentes e editoras pequenas procuram visibilidade na Bienal do livro” (2023, Online), uma autora estreante comenta: “A parte mais intensa e emocionante é ver as pessoas confiando no seu trabalho. O livro acaba sendo só um meio, essa troca é o mais importante para mim”. Nos eventos, os próprios autores se tornam meio, caracterizando-se de acordo com o livro, oferecendo brindes para atrair o público. Desse modo, tanto autores quanto livros acabam se tornando um meio e não um fim nos espaços reservados aos independentes. Enquanto as grandes editoras ocupam os corredores centrais e movimentados, os autores independentes, as pequenas editoras e os coletivos de autores são relegados às áreas periféricas e racham o preço do estande a eles oferecido. Esses estandes têm alto custo nas bienais, especialmente para autores sem recursos, desconhecidos do público, e, portanto, considerados como pouco competitivos pelas grandes livrarias e editoras. A situação do público também é peculiar nesse contexto. Se um evento é programado como espetáculo, ainda que o objetivo propalado seja a leitura, ele se torna efetivamente espetáculo. Os visitantes se comportam como público, não, necessariamente, como leitores. Repetem os clichês em torno do ato de ler nas entrevistas gravadas para as redes de tv ou  para as redes sociais. Um artigo publicado no blog Toma aí um poema, intitulado “Feiras literárias brasileiras: mercado editorial versus valor cultural” (2025, Online) informa que os grandes eventos concentram-se cada vez mais em atrair público e, assim, movimentar o mercado editorial e que as Curadorias dos eventos, por sua vez, apostam em fórmulas ditas populares, com apelo nas redes digitais.

A divulgação em massa é priorizada em detrimento do debate sobre o que é realmente a leitura. E o público é igualmente uma massa de pessoas entre alguns leitores contumazes e casuais. Nesse contexto, os autores independentes perdem ainda mais espaço, sendo, geralmente, alocados atrás das bancas de artesanato e de alimentação, chamarizes em muitos eventos. No artigo, “Os livros não vão morrer e podem virar festa: a febre das feiras literárias e seus impactos no mercado editorial”, publicado no blog da UEMG (2025, On line) relata-se que na Bienal do livro de 2025, no Rio de Janeiro, circularam mais de 740 mil pessoas, um número que registrou um aumento de 23% em relação a 2023. Dentre as pessoas que circularam pelos pavilhões, 130 mil eram estudantes de escolas públicas. Com essa informação, constata-se que a maioria do público nesse e em outros eventos, é de estudantes da rede pública que são levados em caravanas. Esse público “compulsório” faz o maior contingente nos eventos. Geralmente recebe como incentivo à participação (e à leitura) vales-livros das secretarias de educação estaduais e municipais, os quais consistem em cupons e cartões de desconto distribuídos a professores e alunos. Esses vales são financiados com verba pública e têm o objetivo louvável de promover uma política de leitura inclusiva, levando em consideração que professores e alunos de estratos sociais não privilegiados, muitas vezes pauperizados, não possuem recursos financeiros de sobra para a compra de livros. Contudo, nessa iniciativa se apresenta mais um entrave para os autores independentes. Segundo suas próprias reclamações, os programas de “vale-livro” e editais culturais costumam favorecer grandes editoras e livrarias credenciadas. Com isso, ocorre a exclusão dos independentes ao direito de receber os vales e os cupons de desconto, sendo priorizadas as grandes redes de livrarias. Muitas vezes essa exclusão ocorre através das regras de credenciamento dos editais que dificultam a inscrição com exigências de documentos que os independentes não conseguem atender. Aqueles que conseguem transpor esses impedimentos se deparam com a morosidade dos repasses governamentais, após a troca de exemplares pelos vales. Todas essas dificuldades acabam por levar à reivindicação de cotas específicas de vales e cupons de financiamento público aos independentes.

Segundo dados da pesquisa Painel de varejo de livros no Brasil, realizada pela consultoria Nielsen Bookscan e divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), em 2021, referida no artigo “Autores dependentes no Brasil têm dificuldades no mercado” (2022, Online), os leitores brasileiros compraram 55 milhões de exemplares impressos, o que foi festejado como uma cifra recorde. Dos vinte livros que compuseram a lista dos mais vendidos, apenas cinco eram de autores brasileiros, o que revelou uma preferência dos leitores brasileiros por literatura estrangeira. Muitos autores brasileiros reclamam da dificuldade de romper esse quadro da distribuição de livros no Brasil. O depoimento do escritor Odair Schirmer, por exemplo, colhido no artigo, aponta o problema: “Você não encontra muitas obras nacionais nas livrarias. Você vê os indicados pela lista de best-sellers do New York Times. As pessoas leem o que está em destaque” (2022, Online). No mesmo artigo, a escritora Cristina Medeiros comenta que o livro estrangeiro que chega ao Brasil já é um best-seller (2022, Online) Isso significa mais um fator de desvantagem para os autores independentes que concorrerão com autores de fora, os quais já possuem canais de indicação e distribuição.

O transplante literário não é novo em nossa história. Em Folhetim: uma história (1996) Marlyse Meyer demonstrou o impacto da produção estrangeira em nossa leitura. Partindo do ano de 1843, Meyer demonstra que o número de obras traduzidas e não traduzidas era superior ao de obras brasileiras. A autora enfatiza que o ritmo intenso da publicação de folhetins dependia não apenas da demanda interna, mas também da recepção e aceitabilidade que tinham em Paris. Assim, quando uma obra não atingia o sucesso esperado na capital francesa, a sua publicação no Brasil era suspensa e outra tomava o seu lugar. Meyer registra também o enfado que esse gênero causava em alguns autores, entre eles, Machado de Assis. Ainda assim, autores brasileiros se entregaram à tarefa de imitação dos folhetins estrangeiros, produzindo resultados que eram, em geral, piores do que os originais, segundo afirma a autora. Esse aspecto não desapareceu do meio editorial e de leitura brasileiro. A Bienal realizada em 2025 no Rio de Janeiro apresentou como atração para o público uma roda gigante chamada “Leitura nas alturas”, constituindo uma atração temática com cabines personalizadas por livros, oferecendo áudios imersivos de histórias como “Percy Jackson” e “A hipótese do amor”, transformando o evento em um parque de diversões literário no Rio Centro. O objetivo, de acordo com os organizadores, era oferecer uma experiência inovadora e sensorial, ao unir literatura, diversão e entretenimento e permitir ao público ver o universo dos livros de um modo diferente. Dos livros que constavam nas 16 cabines temáticas, apenas três eram de autores brasileiros. Os demais eram obras traduzidas ou versões cinematográficas e de seriados. Da mesma forma, a lista dos livros mais vendidos no Brasil, divulgada na Nelsen – PublishNews, era principalmente de livros para colorir – “Bobbie Goods”, com apenas três obras brasileiras e somente uma de ficção, honrosamente “A hora da estrela”, de Clarice Lispector. É de estranhar que um país com uma rica bagagem de autores ficcionais não os torne atrativos para seus leitores. A lista dos mais vendidos divulgada em maio de 2026, livros de auto-ajuda, devocionais, passatempos, thrillers psicológicos, não difere muito dos livros escolhidos para a viagem imersiva na roda gigante da Bienal, salvo por alguns clássicos da literatura mundial. A Bíblia continua figurando como o livro mais lido e vendido na história do Brasil.

O patrocínio privado e público, através da captação de recursos pelas leis de incentivo à cultura, configura o embate “capital cultural x capital econômico”, referido no blog Toma aí um poema (2025, Online). Para angariar esses recursos, foram criadas leis federais, como a Lei Roanet, uma lei de incentivo fiscal que permite a empresas e pessoas físicas destinarem parte de suas despesas com imposto de renda para financiar projetos literários; recursos também podem ser angariados da Secretaria Especial de Cultura, do Ministério da Cultura, configurando financiamentos estaduais e municipais através das fundações culturais, além do patrocínio propriamente privado e dos programas de parcerias. Na lista figuram Petrobrás, Vale, Suzano, Grupo CCR, Shell, instituições bancárias (BNDS, Caixa Econômica Federal, Itaú-Unibanco, Nubank, aplicativos (Skeelo, OLX), além de programas como o Brasilian Publishers, em parceria com a câmara Brasileira do Livro, Apex Brasil para promover a presença de editoras brasileiras em feiras internacionais.

No século XXI, os eventos ganharam projeção, ampliação nunca antes vista. As feiras e as festas literárias se propagaram por praticamente todo o país. A própria utilização das palavras feira e festa já é um indicativo do quanto o caráter cultural e educativo foi absorvido pelo fim econômico. Numa feira, a finalidade é a venda, as relações são estabelecidas entre vendedores e compradores. A festa, por sua vez, implica a espetacularização, o ajuntamento de pessoas com objetivo de comemorar. A necessidade de introspecção que requer a leitura torna-se estranha ao ambiente de ruídos, algazarras, sons estridentes que muitos eventos apresentam.

A questão fundamental dos eventos literários está para além das considerações sobre os autores independentes. É preciso indagar se esses eventos estão desenvolvendo de fato o gosto e a prática da leitura. O que se constata é que desde que os eventos se espetacularizaram, o seu número e o número do público aumentou ano a ano, mas esse aumento não tem se refletido num aumento de leitores efetivos no país. Seriam esses eventos, como assinalou Suzana Vargas no artigo “O que se festeja nas festas literárias?” (2015, Online) fenômenos de marketing que não levam de fato ao conhecimento e à prática da leitura? Se o livro enquanto artefato concorre com os aplicativos, com os smarts, os e-books, a leitura propriamente dita não está concorrendo com esses novos recursos. A leitura demanda tempo, concentração, reflexão e o que ocorre nas telas é o oposto. O tempo é consumido, zapeado na novidade, na quantidade inapreensível. Contrariamente, um livro lido, por suas próprias características, é usufruto de tempo. Se um público vai a um evento literário com o objetivo de se entreter parece claro que o sistema de ensino está falhando no estímulo à leitura, extensivamente, a programação cultural, o evento, também a está inviabilizando com dias e horários que não atendem a todos as classes e trabalhadores. Se na outra extremidade, os produtores culturais são afrontados por espaços pagos, venda por consignação inviável e distinção por prestígio e fama, as bienais, feiras e festas deixam de ser acessos democráticos à leitura e se tornam eventos hierarquizados para os autores e para o público.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SALVE OS NATIVOS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO

                                                                                            Isaac Warden Lewis

No mês de abril de 2026, foram exibidos pela TV Cultura de São Paulo programas de extrema importância para a sociedade brasileira. Primeiramente, no dia dezenove, foi exibido o documentário Xingu conexão ancestral Tókio, demonstrando as identificações entre a arte japonesa e a arte dos povos nativos da sociedade brasileira, no caso, os povos do Xingu. O programa evidenciou que as pinturas e as esculturas produzidas pelos orientais, particularmente pelos japoneses, assim como suas relações culturais com a natureza, possuem ligações ancestrais com a arte e a cultura produzidas pelos povos do Xingu. Isso já foi estudado e demonstrado por arqueólogos e antropólogos brasileiros e internacionais.

No dia vinte e um de abril, o programa Roda Viva entrevistou o escritor Daniel Munduruku, que ministrou uma aula muito instrutiva sobre a vida e a cultura do povo Munduruku. Daniel nasceu em 1964, no Pará, fez vários cursos universitários, entre os quais Literatura e Filosofia. Publicou mais de 70 livros e continua escrevendo. Os livros são voltados para seus parentes e para jovens e crianças de nossa sociedade. Estranhamente os membros da Academia Brasileira de Letras nunca o convidaram para que ele fizesse parte dessa importante instituição. Isso me fez lembrar que a brasileira Giselda Laporta também nunca foi convidada para fazer parte dessa academia. Isso indica que essa academia menosprezou a sabedoria das mulheres e dos povos originários. E por falar nisso, por que será que nos nossos tribunais de justiça, nas assembleias legislativas e no Senado não temos afro-brasileiros e nativos nos representando? Por que será que esses indivíduos são premiados e consagrados em países que fundaram repúblicas democráticas e os brasileiros que se julgam europeizados não adotam medidas avançadas nas academias, nos tribunais e assembleias legislativas?

 A propósito, muitos de nossos nativos desenvolveram conhecimento através da oralidade, o que também me fez lembrar que certos literatos costumam citar o filósofo Sócrates, o qual se comunicava através da oralidade. Aliás, no mundo antigo a principal forma de comunicação era a oralidade. No caso de Sócrates, além de se comunicar oralmente com seus interlocutores, ele criou um método de investigação, a Maiêutica, questionando continuamente seus interlocutores, obrigando-os a revelar sua ignorância. Isso também me faz lembrar que em 1993 os doutores da USP questionaram os professores da Universidade do Amazonas por criar um curso de filosofia em São Gabriel da Cachoeira – AM, demonstrando ignorância e preconceito. Essa situação ainda me faz lembrar uma experiência de Helen Keller, norte-americana, cega e surda-muda, educada por uma cuidadora, Anny Sullivan. Um dia, ela estava em casa e recebeu a visita de uma amiga a qual resolveu andar pelos bosques nas proximidades. Na volta, Helen perguntou se ela havia visto alguma coisa interessante. A amiga, com dois olhos, dois braços e duas pernas, como relatou Helen Keller, respondeu que não vira nada de interessante. Todos nós, brasileiros universitários, devemos ler os livros de Hellen Keller, de Giselda Laporta e de nosso compatriota Daniel Munduruku.

É hora, ou melhor, já passou da hora, desse país que se diz abençoado por deus, o que é, evidentemente, uma falsidade medieval, fazer reformas realmente inclusivas na sua Constituição e implantar uma república verdadeira, não uma republiqueta de vassalos.

Falar em dia do índio é um equívoco porque não existe índio no Brasil tampouco indianos. O que existe são povos Mura, Parintintin, Tucano, Dessana, Baniwa, Maku, Guarani, Tupi-guarani, Tupinikim, Tupinambá, Tamoio, Krenak, Munduruku, além de muitos outros que estão nesse território há mais de dez mil anos. No norte do Brasil, havia os Manaú que organizaram uma luta sob o comando de Ajuricaba o qual recebia armas dos holandeses que desciam o rio Negro até Manaus. Havia também os Mura que empreenderam lutas contra os invasores portugueses e espanhóis. No Amazonas há ainda hoje os Waimiri-atroari que sofreram perdas de vidas durante a construção da Transamazônica. Por isso não bastam desculpas. A sociedade brasileira deve indenização a esses nativos também. Do Brasil saíram os Tupinambá que foram para o Caribe e também saíram os Caribe, que foram para aquela região. Quando os ingleses chegaram em Barbados, encontraram os Caribes e os Tupinambás. No sul do país, os Guarani sofreram muitas perdas também quando os “gloriosos” bandeirantes paulistas  invadiram o território guarani e sequestraram nativos em São Paulo. Houve um momento em que os jesuítas espanhóis que tratavam os nativos com respeito e consideração resolveram relatar os crimes covardes dos bandeirantes paulistas e solicitaram apoio da Espanha, que os autorizou a usar armas contra os paulistas. Os jesuítas fabricaram armas e ensinaram os nativos a usá-las. Os paulistas chegaram a aldeia para sequestrar mais nativos e foram recebidos à bala. Surpresos, fugiram do local, deixando alguns mortos. Resolveram seguir em direção ao Mato Grosso e Goiás para procurar garimpo e ouro e muitos morreram pelo caminho. Os que chegaram a uma aldeia encontraram ouro e resolveram descer o Tapajós para chegar a Belém. Pretendiam solicitar do governo da província autorização para explorar as minas que encontraram na aldeia dos nativos Tapajós. O governo demorou a autorizar a expedição dos paulistas. Ele não tinha autorização da Coroa portuguesa, mas o governo foi autorizado a permitir a exploração das minas dos nativos tapajós, sendo que o governo deveria acompanhar e autorizar as ações dos bandeirantes. Eles partiram para Goiás. Logo a seguir, uma comitiva do governo paraense seguiu para Goiás para fiscalizar o trabalho dos bandeirantes paulistas. Quando a comitiva paraense chegou a Goiás, encontrou os bandeirantes mortos. Os indígenas os assassinaram e se retiraram para local desconhecido. A comitiva paraense nada pode fazer e retornou a Belém. Tudo isso está relatado no livro “...E o branco chegou com a cruz e a espada”, de José Oscar Beozzo. Outro livro importante para conhecermos o país em que vivemos.  Minha homenagem póstuma a Márcio Sousa, Tiago de Mello, Arthur Engrácio que escreveram sobre a realidade de nativos que conviveram com judeus, turcos, quilombolas, libaneses, argelinos. A sociedade brasileira é multirracial e isso é motivo de orgulho. Não precisamos ir para países que adotaram falsa democracia e falsa república, incapazes de assimilar as lições dos revolucionários da Revolução Francesa e se orientaram por visões medievais.

Por fim, fica evidenciado por tudo que foi explicitado sobre a ocupação dos nativos no território brasileiro que eles ocuparam esse território há mais de dez mil anos e cuidaram bem da natureza desse território. A sabedoria milenar desses povos pode ser comprovada pela declaração de um nativo por ocasião da última enchente no Rio Grande do Sul, quando um jornalista perguntou a um nativo se as águas não invadiam sua residência e ele respondeu que seus parentes não construíam suas casas em terra baixa, no caminho das águas, construíam nas partes altas ou debaixo do caminho das águas e construíam cavernas para se abrigarem. Mostrou as cavernas construídas por eles debaixo do caminho das águas. Salve o dia dos nativos – 19 de abril.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

         





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Violência histórica na sociedade brasileira colonizada – 30,00

A expressão literária – 40,00

Trabalhos acadêmicos – 20,00

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Conhecimento e realidade social em Karl Marx – 20,00

Os apartados no Brasil império – 30,00

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segunda-feira, 16 de junho de 2025

A MULHER, A MINISTRA E O MEIO AMBIENTE


                                                                  Lucilene Gomes Lima*



Foto: Wikipédia


As palavras revelam mais do que seus emissores desejam ou pensam revelar. O senador Plínio Valério em audiência na Comissão de Infraestrutura do Senado, no dia 27 de maio de 2025, em que interpelava a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, lhe diz: “A mulher merece respeito, a ministra, não". O senador separou o ser mulher do cargo que ela ocupa. Acaso alguém pode se separar da sua condição social, histórica, biológica para assumir um cargo? Isso precisaria ser possível para que o senador, segundo outra fala sua, pudesse enforcar somente a ministra e não a mulher.

Singularmente com a mulher ocorre o fato de se separar o que ela é profissional e socialmente de sua categoria ontológica. Na sociedade de consumismos em que vivemos, muitas vezes, as datas de vendas do comércio separam mãe, mulher, profissional. Nesse contexto, por mulher se entende apenas o sexo e sua capacidade de atração e geração. Por isso, quando alguém refere a palavra mulher precisa explicitar o que quer dizer com essa palavra.   

O senador Plínio Valério diz respeitar as mulheres porque tem seis filhas. Para ele, ter filhas, fato que, no momento de geração, não depende de sua escolha, significa respeitar mulheres. É preciso saber se ele respeita as filhas em seus estudos, suas profissões e como seres pensantes. O senador diz respeitar a ministra Marina como mulher, porém demonstra não respeitar Marina, ser histórico com inegável participação e luta nas questões ambientais, as quais motivaram toda a discussão e os desentendimentos. Marina, ser social mulher, já estava envolvida com as questões ambientais antes de ser ministra do meio ambiente. O senador Plínio finge ignorar que a mulher nunca se separou em convicção, pensamento e ação da ministra. Marina cresceu ativista ambiental, foi membra de partido político de ativismo ambiental, o Partido Verde, e fundou um partido cujo lema principal é o ativismo ambiental, a Rede Sustentabilidade, e se não merece respeito como ministra, também não é considerada confiável pelo setor do agronegócio brasileiro, daí seus embates como sindicalista, parlamentar e ministra. Marina sempre enfrentou embates nos cargos que ocupou, tendo se mantido firme em seus princípios. O senador Plínio separou Marina, ser real, histórico de seu cargo e a pôs numa categoria abstrata, a mulher. Por outro lado, o senador Plínio demonstrou, por suas próprias palavras, não respeitar nem mesmo essa categoria, uma vez que diz que a esposa o repreendeu por não a ouvir e ouvir a ministra Marina. Não é demais inferir que se o senador não ouve sua mulher, que não é ministra, pode também não a considerar nem respeitar.

Dizem que a emenda costuma sair pior do que o soneto e parece ter sido isso que ocorreu quando o senador Plínio, ao tentar se retratar por sua fala com relação à ministra Marina, disse em entrevista: “Se eu pedir desculpas para Marina não entro em casa”. Não se pode precisar o que o senador quis dizer com essa fala. Talvez signifique que ele nunca pede desculpas para sua mulher e ela, a exemplo do contexto em que o recriminou por não ter disposição de ouvi-la, não aceite a sua contradição.

O senador Plínio demonstrou covardia usando as mulheres (esposa e filhas) para se eximir da acusação de preconceito e foi oportunista e demagógico ao recorrer à pandemia de Covid 19 para justificar o descaso e o desrespeito para com o ambiente de sua terra natal. Como as palavras não estão livres do oportunismo de quem as enuncia, o senador Plínio Valério e o senador Omar Aziz se transformaram em paladinos dos direitos humanos, da compaixão humana, alardeando o desejo de salvar pessoas e, ao mesmo tempo, menosprezando a catástrofe ambiental planetária, na qual, inclusive, as pandemias podem se generalizar. Quando o senador Plínio diz que se pedisse desculpas à ministra não conseguiria se eleger nem para o cargo de vereador, indica quem são seus eleitores, mas, devido sua imprecisão vocabular, não se sabe se o que ele quis realmente comunicar é que não será reeleito porque pede desculpas a uma ministra que se posiciona a favor da preservação do meio ambiente ou porque, simplesmente, pede desculpas a uma mulher.

O senador Marcos Rogério, presidindo a Comissão de Infraestrutura, disse à ministra Marina que ela estava agindo por sexismo e depois que era mal-educada por interromper a fala dos senadores e lhes apontar o dedo, por último, disse à ministra que se colocasse no seu lugar. Todas essas acusações têm um contexto que as precederam, apesar de o senador Marcos omitir esse contexto ao se defender em plenário por suas falas e criticar o comportamento da ministra como de uma pessoa exaltada e desrespeitosa. O sexismo do qual o senador acusou a ministra foi trazido à discussão na comissão não por ela, mas pelo senador Plínio, e o desrespeito ao direito de fala foi praticado pelo próprio senador Marcos quando cortou o microfone da ministra, que respondia ao senador Omar Aziz, o qual, com tom de voz alterado e ofensivo, ao denominar a equipe do ministério de “meia dúzia de especialistas que falam besteira sobre região que não conhecem”, a acusou de não ter lhe respondido uma pergunta. O que o senador Omar finge não saber é que Marina nasceu num estado da Amazônia, o Acre, e que conhece a região como lugar de vivência, não somente como função burocrática de governo. O contexto demonstra que a ministra só alterou o tom de voz, apontou o dedo em riste e, por fim, retirou-se da audiência após ter sido sucessivamente ofendida.    

Os três parlamentares foram inábeis ou sordidamente hábeis com as palavras, apesar de ocuparem o cargo de respeitáveis senadores da República. Todos revelaram-se por suas palavras: aquele que disse que respeitava uma mulher sem, de fato, respeitá-la; aquele que menosprezou a preocupação com a segurança ambiental, qualificando-a como “conversinha de governança” e aquele que disse a uma ministra mulher qual era o seu lugar de fala – calar-se. É preciso questionar para que servem a Educação, o Congresso, o Ministério do Meio Ambiente se os senadores Omar Aziz, Marcos Rogério e Plínio Valério, dentre outros, não consideram e não respeitam os conhecimentos e os dados técnicos produzidos por especialistas brasileiros.

Longe de não ser importante a discussão sobre o gênero que a audiência possibilitou, a questão do meio ambiente é central, primeiramente, por demonstrar a capilaridade dos interesses em jogo. Um embate, na verdade, entre o grande capital e os defensores da preservação ambiental, conforme explicita na audiência a fala do senador Lucas Barreto, autor do requerimento que convidou a ministra: “[...] Nós queremos esse direito de prospectar essa riqueza que tem na costa do Amapá”. Enquanto uma ministra apresenta dados técnicos, um senador apenas diz que ela está mentindo, ecoando os interesses das empresas que extraem gananciosamente os elementos naturais, constroem estradas, administram e lucram com as frotas rodoviárias. Nesse aspecto, explica-se a confluência de propósitos dos senadores: desmoralizar o poder de voz de uma mulher e menosprezar o tema da catástrofe ambiental.   

 


 * Mestra em Estudos literários pela Universidade Federal do Pará, autora dos livros O mestre e o discípulo, O julgamento, Ficções do ciclo da borracha, A expressão literária, O produto imaginário, cofundadora da editora Mundo Novo 


sábado, 31 de maio de 2025

L A N Ç A M E N T O

 





Esse livro é composto de duas partes. Na primeira são caracterizadas as bases  constitutivas do produto imaginário na mensagem publicitária a  partir  de    concepções históricas e sociais do feminino e como esse discurso se apresenta na mensagem publicitária brasileira através da análise de anúncios elaborados nas décadas do século XX e primeira década do século XXI. Na segunda parte são analisados os veículos transmissores dos anúncios e a consequente relação ideológica entre os conteúdos das mensagens publicitárias e os conteúdos divulgados por esses veículos. 


quinta-feira, 22 de maio de 2025

(DE) CADÊNCIA

 

                                                                                                     Lucilene Gomes Lima

 

P

 

elo barulho do tecido se rasgando, ela calculou que o vestido se partira de cima a baixo. “Mais cedo ou mais tarde, isso aconteceria, Maria das Graça”’, pensou. Mas por que se chamava assim? Estava tão certa de seu infortúnio a ponto de resgatar o passado obscuro?

Chamava-se, de fato, Maria das Graças, mas mudou de nome e de vida para ser Josephine, a modelo refinada das passarelas. No tempo em que fora Maria das Graças nunca brilhara, nunca encantara plateias seletas, nunca conhecera o mundo da moda nem vestira os mais invejáveis vestidos, idealizados por geniais estilistas. Só ela sabia o que era nascer numa cidade do interior que apenas os mapas registram. Por isso, decidiu enterrar o passado. Preferiu fazer de conta que Maria das Graças nunca existira.

Então, por que se lembrar agora de que Josephine não era seu nome verdadeiro? Se tudo foi modificado para que não ficasse o mais leve sinal da existência de Maria das Graças. Mudaram-lhe a cor do cabelo, transformaram-lhe os traços do rosto, ensinaram-lhe um novo modo de falar, andar, comer, sorrir. E assim, aos poucos, ela esqueceu realmente quem era. Deslumbrou-se com o mundo da moda e passou a orientar-se somente por ele. Uma ou outra lembrança que lhe vinha da vida de outrora servia apenas para reforçar sua abjeção: a mãe chorando, debruçada à janela no dia em que ela partiu; a mãe, trajando aquele vestidinho de chita... como era triste e insignificante o mundo que ficava para trás.

Só, no camarim, buscava uma explicação para ter chegado ao ponto de descuido que chegara e, mais que tudo, buscava uma forma de salvar-se do vexame.

Calculava quanto custaria aquele vestido. Certamente não estava em jogo somente o valor em dinheiro. Sabia do temperamento do estilista que idealizara aquela peça. Ele jamais a perdoaria por tê-la destruído, menos ainda no dia em que pretendia expô-la como a grande sensação do desfile.

Não seria menor a humilhação que passaria perante as outras modelos. Sequer tinha argumentos para advogar em sua causa. Rasgara aquele vestido porque cometera o maior pecado que uma modelo poderia cometer – engordara.

Disfarçara o quanto pudera. Evitara ficar em trajes menores diante das outras a fim de que não notassem o seu corpo mais cheio. Inútil. Elas já deviam estar desconfiadas. Uma delas, inclusive, havia feito uma insinuação em forma de piada.

Indiferente ao seu drama, o desfile se inicia lá fora. Todas as modelos já estão perfiladas em frente a escada de acesso à passarela. Ela receberá a deixa para entrar por último, tática usada pelo estilista para causar maior suspense na plateia. O vestido que usa é a peça principal da coleção; falava-se pelos corredores que o estilista passara meses idealizando-o.

A fumaça produzida pelo gelo seco invade a passarela, criando uma atmosfera de mistério e, assim que se dispersa, a primeira modelo sobe, cadenciando o movimento do corpo. Seu rosto impassível lembra os dos manequins de cera das vitrines.

Josephine aguarda o momento de sua chamada. Pensa em fugir, mas não pode sair do camarim sem ser vista. Poderia, então, tentar explicar-se, buscar benevolência, compreensão. Entretanto, com o número expressivo de moças que tentam ocupar seu lugar, é pouco provável que lhe seja dada uma chance de explicação. Tais moças, com as medidas rigorosamente nos padrões, são capazes de qualquer coisa para terem uma chance de brilhar. Todas elas sonham subir as passarelas um dia e desse modo obter fama, sucesso e muito dinheiro.

Entretanto, o descarte também faz parte da carreira de uma modelo. Como qualquer produto, estão sujeitas a serem substituídas logo que se desgastem ou se tornem desinteressantes.

As modelos expõem o segundo traje da noite. Em breve, Josephine será chamada para sua entrada triunfal e única.

Ela permanece dento do camarim, a porta semiaberta, olhando o desenvolvimento do desfile, contando os minutos que lhe restam, temendo ouvir a deixa para sua entrada.

Nesses momentos que antecedem a sua desdita, antevê o futuro como um filme. Primeiramente, os contratos cancelados e o fechamento de todas as portas; depois, o retorno.

A mãe recebendo-a com o semblante de quem constata a vitória da experiência, a confirmação dos conselhos e das imprecações. E proferindo as mesmas recriminações banais. Ela sofrendo com a certeza de que se voltasse no auge da fama a acolhida seria diferente. A mãe seria, então, cúmplice de seu audacioso projeto, de sua ousada tentativa de romper o círculo em torno do horizonte pequeno e destacar-se para o mundo.

Resta-lhe saber o que levará da vida de glamour. Que significa, finalmente essa vida? Luzes, brilho, imagens. É para os outros uma imagem? Uma imagem nas capas de revistas, uma imagem na tela da televisão. Uma imagem que precisa ser alimentada continuamente de seu caráter ilusório. Sendo assim, nada poderá levar que pertença a esse mundo. A partir do momento em que se desligue dessa imagem, será apenas um ser comum, semelhante aos outros, semelhante, até, a sua mãe.

Do corredor vem a chamada inevitável. Ela respira fundo, sente-se suspensa no ar, não sente o próprio corpo. Nesse momento não há passado, não há futuro, só o receado presente.

Num estado de transe, dá alguns passos a caminho da escada. Não sabe por que caminha. Sente-se absolutamente indiferente em relação ao que vai fazer, mas seus pés se movimentam e ela vai subindo, degrau a degrau.

A plateia está em silêncio; ouve-se, ao fundo, uma música de tom exótico. Há uma excessiva claridade na passarela. Ela preferiria que tudo fosse escuridão. Os flashes das máquinas fotográficas começam a disparar antes mesmo que ela suba o último degrau.

E, logo, sem saber como chegou até ali, está sobre a passarela. Uma brisa fria lhe penetra no corpo pela extensão do vestido rasgado. Como uma vítima que olha para o algoz, ela lança um olhar de relance para o estilista. Ele parece estupefato.

Ela continua desfilando mecanicamente, julga-se ensandecida. Mas a plateia, num único gesto, transforma tudo. Aplaude vigorosamente, está embevecida, o que vê é deslumbrante.

O estilista é aclamado e sobe a passarela para receber os aplausos pela absoluta originalidade do modelo.   


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

MEMÓRIAS DE ADORAÇÃO AO FOGO

                                                                                            Lucilene Gomes Lima 


Você não imagina como essas cenas da minha infância ainda estão vivas em minha memória. Lembro-me como se fosse hoje. Parece até que minha velha avó está me olhando com aquele seu jeito de deixar qualquer um amofinado. Se eu tinha medo dela? Claro que tinha.

Ela sempre me levava para o roçado nos dias em que ia fazer a coivara a fim de preparar a terra para a plantação de tabaco. Fazia uma grande fogueira. Uma coisa imensa para os meus olhos de criança. Eu passava um longo tempo a olhar para o fogo. O que via nele? Muitas coisas. Era superior e soberano como a minha avó. Pra mim, representava o mesmo que ela. Causava temor e admiração.

Minha avó era especialista em beliscões. Você acredita que eu ainda me lembro da dor intensa dos beliscões que ela me dava quando me recusava a tomar banho? Nunca lhe respondia malcriações, mas no meu pensamento eu a praguejava com os palavrões mais feios do mundo.

Depois, eu tinha remorso, ficava pensando se não era pecado desejar coisas tão feias para a minha avó. E ela sempre dizia que criança malcriada o diabo levava. Acho que era por isso que quase todas as noites eu sonhava que o diabo queria me levar. Como era o meu sonho? Era uma aflição danada. Parece que tudo estava acontecendo de verdade.

Você sabe como é a imagem do diabo? Num dos meus sonhos, ele apareceu com cabeça e patas de bode, pernas negras, escamas verdes, asas azuis, cabeça vermelha. Bicho pavoroso. Tinha uma força fora do comum.

Disse que ia me levar e começou a me arrastar. Eu me debati. Empreguei toda a resistência que pude para me soltar. O bicho não desistiu e tanto fez que...

Você ouviu? Esse é o meu neto, Quinzinho. Nunca sabe encontrar nada sem a minha ajuda. Aguarde um pouquinho que eu vou terminar de lhe contar como acabou o sonho.

Pronto. Já estou de volta. Em que parte eu parei? Isso mesmo. Você lembrou bem. Quando o diabo queria me levar.

Como estava contando, o bicho tinha vencido e já estava me levando para o inferno com ele, mas, nesse momento, sabe quem apareceu? Não, não foi Deus. Mas foi como se fosse.

Exatamente. Foi a minha avó. Ela apareceu toda de branco, cercada por chamas de fogo brilhantes, segurando uma cruz, e não sei com que forças me arrebatou das garras do monstro e me salvou.

Rezei muito quando acordei e venerei minha avó como se fosse santa. Depois que voltei a sentir a dor de seus beliscões, esqueci o sonho e tornei a desejar-lhe mal.

Não demorou muito e eu tive o mesmo sonho em que o diabo aparecia querendo me levar. Você já deve estar se perguntando se a minha avó me salvou. Isso eu conto depois. Primeiro, preciso contar toda a aflição que passei. Desta vez o sufoco foi maior.

Ao ver o bicho se aproximando, eu tentei escapar. Não consegui. Os meus pés não se moviam do chão. Eu não tinha forças para movimentar nenhum músculo do meu corpo. O que fiz? Fiquei parada e rezei. Rezei todos os pedaços de orações que eu sabia. Acho que rezei até coisa que nem era oração. Naquela hora, eu tinha de rezar qualquer coisa. Não teve reza que fizesse o bicho parar...

Está ouvindo? É o menino de novo. Espere só mais um pouquinho que eu vou saber o que ele está querendo.

Você está vendo como essas crianças dão trabalho? Bom, agora eu posso terminar de contar o sonho.

Como eu dizia, o bicho ia me dominar com suas garras quando, de repente, uma coisa muito estranha aconteceu. O bicho tinha se transformado na minha avó. Eu fiquei confusa. Achei que aquilo era uma arte do demônio para me iludir. Não era. Era a minha avó mesmo, e foi ela quem mais uma vez me salvou.

Passei a ter menos medo de sonhar com o demônio, confiando que minha avó sempre me salvaria. No mundo real, a história era diferente. Eu sempre a temia e até a odiava porque me aplicava castigos cruéis.

Uma noite, eu sonhei que o diabo saía das labaredas do fogo para me pegar. Tive medo. Esperei minha avó chegar para me salvar. Ela veio. E quando os dois se enfrentaram cara a cara...

Mas esse menino está-me chamando outra vez! Eu volto já.

Será que demorei muito? Você está ansioso para saber como acabou o sonho? Parei quando o diabo e minha avó estavam se enfrentando, não foi?

Você deve estar pensando que minha avó expulsou o diabo e mais uma vez me salvou. Não foi tão simples assim. De repente, diante dos meus olhos, os dois se juntaram num só corpo. Uma parte era a minha avó, outra era o diabo. Então, ficaram me puxando de um lado e de outro. Se eu me deixasse levar por minha avó, também acabava sendo levada pelo diabo. Lembro claramente desse momento de agonia, mas não lembro no que foi que resultou. Por que não me lembro? Ora, porque nesse momento eu acordei.  

* Publicado originalmente em O mestre e o discípulo (2000)