Lucilene Gomes Lima
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| Gabriela_albuquerque_feiras (instagram) (7.11.2025 |
Algumas feiras
literárias têm acolhido, sob a denominação de independentes, os autores que
publicam por conta própria. Reconhecendo que esses autores necessitam de um
público (leitor), um pequeno percentual dessas feiras oferece o tempo exíguo de
uma hora para que os autores lancem suas obras e as autografem. Porém, que
sentido há para os leitores ou frequentadores de feiras e festas literárias os
autógrafos de desconhecidos, uma vez que um autógrafo faz parte do sentido de
fama e, que, não por outro motivo, um autor desconhecido é gentilmente ignorado
quando ao seu lado está um escritor que já é conhecido do público? O autor independente
e neófito tanto quanto o autor que adquiriu prestígio, deseja encontrar
leitores e busca também a interação entre autor e leitor.
Apesar dos fatos elencados acima, existem autores que
argumentam que não há competição entre autores: “É um erro comum entre
escritores pensar que estamos competindo entre nós mesmos. Em vez disso, é o
livro, enquanto tecnologia, que concorre com o fluxo de informações das redes e
do streaming [...]” (Borges, 2023, Online). Para entendermos e questionarmos a
profundidade dessa afirmação, é preciso considerar dois pontos: quais os
precedentes históricos da leitura no Brasil e em que nível esses precedentes se
situam em relação ao evento de acesso aos recursos digitais. Como destacam
Marisa Lajolo e Regina Zilberman, em A
leitura rarefeita (2002), apesar de a Coroa portuguesa haver autorizado a
utilização de prelos no Brasil, durante o século XIX, uma cultura letrada
estava muito aquém de se desenvolver, pois não havia instituições tais como
escolas, livrarias e editoras que possibilitassem a difusão de materiais
impressos. Mais grave ainda, segundo informam as autoras, era a falta de
familiaridade da população com a leitura e o desconhecimento de qual era seu
fim, se não o religioso. O quadro geral da falta de escolas não foi impedimento
para que, na Constituinte de 1824 se propusesse a criação de universidades, num
contexto em que sequer havia material didático. Somente com a inauguração do
Colégio Pedro II e de algumas outras escolas na Corte, os livros didáticos
deixaram de ser raros. Cumpriu-se oficialmente no país a criação de algumas
instituições culturais e de ensino, como o Gabinete Português de Leitura, a
Biblioteca fluminense e o Ginásio Científico-Literário Brasileiro sem que
houvesse, de fato, bases sólidas para práticas de leitura e escrita da maioria
da população brasileira.
Os problemas da leitura no Brasil (falta de condições
estruturais, formação deficiente, desincentivo à leitura crítica e científica
em prol da leitura catequética e devocional) persistem ao longo dos séculos. Na
pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, realizada em 2024, com 5.504
brasileiros alfabetizados e não alfabetizados em 208 municípios apurou-se que
53% dos entrevistados não leu nenhum livro impresso ou digital no período de
três meses anteriores à consulta, revelando um quadro ainda precário de nossa
formação letrada, com contradições inegáveis. A pesquisa enfocou como leitor
aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero,
impresso ou digital e como não leitor aquele que declarou não ter lido nenhum
livro ou parte de um livro nos últimos três meses anteriores à pesquisa. O
recorte, portanto, pretendia evidenciar a frequência de leitura dos
brasileiros. Em percentuais, 53% dos entrevistados se declararam não leitores e
47% leitores. A amostra também registrou a escolaridade e a classe social dos entrevistados,
sendo que 6% eram não alfabetizados ou não frequentaram a escola normal, 17%
cursaram o ensino fundamental I (1º ao 5° ano), 23% o Fundamental II (5ª A 8ª
série ou 6º ao 9° ano), 3% o Ensino Médio (1º ao 3º ano) e 18% o ensino superior.
Quanto às classes, 27% eram das classes D e E, 35% das classe A e B e 60% da
classe C. A faixa etária do público foi de 6% entre cinco e dez anos, 23% entre
59 a 69 anos, sendo a média de 37 anos. Os 47% que se declararam leitores leram
livros em geral, mas somente 27% leram livros inteiros; 40% leram apenas em partes;
12% disseram ter lido livros indicados pela escola. 47% leram por vontade
própria; 22% leram por vontade própria a Bíblia; outros 22% leram por vontade
própria literatura. Os percentuais de leitores que estavam estudando e que não
estavam são relativamente próximos. Contrariando a expectativa de que a escola
estimula a leitura, 56% dos entrevistados estava estudando, contra 57% que não
estava. A motivação para a leitura que a pesquisa registrou é fragmentada – o
maior percentual, 24%, diz ler por gosto, ficando outros motivos como
distração, atualização de conhecimentos gerais e crescimento pessoal em índices
mais baixos. A leitura para atualização profissional teve o mais baixo desses
índices, apenas 6%, inferior inclusive ao índice da motivação religiosa, que
foi de 8%. Correlativamente, a Bíblia foi o gênero mais lido entre os leitores
acima de 18 anos, com percentual de 38%. Além disso, outros 17% também
apontaram o gênero religioso como preferencial para a leitura, ficando o
ficcional e o conhecimento técnico com menos da metade da preferência dos
leitores.
A casa foi apontada como o lugar em que se costuma ler
por 85% dos entrevistados. Apesar de parecer uma escolha lógica, é preciso
considerar, nesse caso, o tempo disponível em casa, excluindo-se o tempo do
trabalho fora de casa e a própria divisão do tempo em casa com outros afazeres
ou responsabilidades e com atividades de distração e lazer. A escola foi
apontada por 19% dos entrevistados como o local em que costumam ler e outros
14% apontaram a biblioteca. Em termos de aproveitamento de leitura e estudo, a
biblioteca é um local mais apropriado do que a casa, uma vez que nela não há
interrupções ou inadequações. Os próprios entrevistados consideraram essa
adequação ao referirem a biblioteca como local mais apropriado para leitura.
A pesquisa registra a mesma falha estrutural recorrente
na formação do público leitor brasileiro, uma vez que quase metade dos
entrevistados (46%) disseram não haver na cidade ou bairro em que moram uma
biblioteca pública, enquanto 74% disseram não haver uma biblioteca comunitária.
Chama atenção ainda a atitude de não frequentar biblioteca, apontada por 44%
dos entrevistados. Antes que se possa pensar que o problema é de acesso, a
pesquisa registrou que apenas 13% destacou o problema da distância entre a
biblioteca e sua casa como motivo para não frequentar, enquanto 39% disseram
que nada os faria frequentar bibliotecas e 8% apontaram a preferência para que
a biblioteca tivesse internet, ou seja, o espaço deixou de representar para
esses leitores o contato com livros físicos. No tocante aos motivos para não
ter lido nos últimos três meses anteriores à pesquisa, 43% dos entrevistados
alegou falta de tempo. Por outro lado, 23% disseram não estar ocupados e mesmo
assim não leram, 28% disseram não gostar de ler e outros 14% disseram não ter
paciência. As justificativas como dificuldade, cansaço e preço caro foram
gradativamente mais baixas, entre 6, 3 e 1% respectivamente, o que atesta, no
recorte da pesquisa, que esses fatores não foram os mais impeditivos. Quanto
àqueles que leram nos três meses anteriores ao enfoque da pesquisa, 47%
alegaram não ter lido mais por falta
de tempo, 28% afirmaram não ter lido mais por não gostar e 14% por não ter
paciência para ler. Desse modo, os motivos
em percentuais entre os que não leram e os que leram são semelhantes e apontam
um fator relevante: a não leitura por falta de gosto e a pouca leitura pelo
mesmo motivo, ou seja: a leitura ainda é impositiva. Entre os motivos apontados
como dificuldade propriamente dita para ler, 26% disseram não ter paciência,
18% disseram ler muito devagar, 15% disseram não ler por problema de visão, 14%
de concentração e 8% disseram não compreenderem o que leram, porém 48% disseram
não ter dificuldade nenhuma. No quesito gosto pela leitura, 43% dos
entrevistados cursando ensino superior disseram gostar um pouco de ler e 26%
disseram não gostar, evidenciando que mesmo nesse nível de ensino a leitura não
é vista como prioritária. Quando o questionamento focaliza a faixa etária, os
entrevistados na faixa de 14 e 49 anos que dizem gostar um pouco de ler atingem
níveis percentuais de 42% a 50%. Os maiores percentuais dos que não gostam de
ler, entre 29% e 37%, está nas faixas de 29 aos 70 anos ou mais.
Sobre a influência para a formação de leitores e
desenvolvimento de gosto pela leitura, os entrevistados informaram que as mulheres
da família influenciaram mais do que os homens, tendo peso tão importante
quanto de professores, inclusive as mulheres não leitoras. Por outro lado, são
altos os percentuais de mães e pais de leitores que nunca leram, sendo que para
os não leitores a situação é ainda pior, atingindo índices de 61% entre as mães
e 70% entre os pais. Essa estatística revela a instrução tardia dos
brasileiros, corroborando todos os fatores que estão no início da estrutura
escolar do país. Os percentuais de escolaridade dos pais apresentam índice de
15% de analfabetos, 5% de graduados e entre 5 e 6% de pós-graduados. Entre os
pais analfabetos, 10% dos filhos são leitores em comparação com outros 19% que
não são. Na escolaridade dos pais, se apresenta um diagnóstico: a escola é uma formalidade
burocrática ainda hoje, não uma criadora de leitores, pois apenas 8% deles com
graduação e pós graduação são leitores. O estimulo que pais, mães e parentes
deram aos entrevistados para leitura é negativo, pois 57% disseram que pais e
parentes nunca leram para eles. Nem mesmo na faixa etária do leitor entre 5 e
13 anos os pais costumavam ler para seus filhos. Um percentual de 53% dos
entrevistados leitores disseram que isso nunca acontecia e 72% dos não leitores
fizeram a mesma afirmação. Ainda assim, 44% dos entrevistados afirmaram que não
gostariam que os pais lessem mais para eles. Entre os leitores, 49% disseram
que nunca foram presenteados com livros, enquanto 76% dos não leitores fizeram
a mesma afirmação. Entre os 37 livros que os entrevistados mais citaram estar
lendo, a Bíblia estava em primeiro lugar, além de alguns livros de ficção,
entre eles best-sellers traduzidos. Esses
livros foram indicados por um professor ou professora, segundo 20% dos
entrevistados, outros 19% disseram que foi por um amigo e 9% por um líder
religioso, mas 23% disseram não ter recebido indicação de ninguém em especial.
Entre as faixas etárias de cinco a dez anos, 53% tiveram as maiores indicações
na escola. A pesquisa de 2024 apresenta
uma redução do percentual de leitores na série histórica da pesquisa, iniciada
em 2007. A redução se deu tanto por faixa etária quanto por gênero,
escolaridade, classe, renda e entre estudantes e não estudantes.
No que concerne ao acesso e à assiduidade ao meio
digital, a pesquisa registra o quadro é outro. O Brasil é um dos líderes
mundiais em tempo de exposição a telas. Em 2024, o brasileiro passou, em média,
nove horas e meia por dia conectado à Internet. Desse tempo, dedicou quase
quatro horas por dia às redes sociais. Segundo, ainda, a mesma pesquisa, os
percentuais dos que dizem gostar de usar a internet em seu tempo livre, assim
como dos que se dizem usuários da rede, são bastante altos, respectivamente 77
e 88% dos entrevistados. Por outro lado, apenas 20% responderam que gostam de
ler livros em papel ou digital em seu tempo livre. São também apontadas uma
série de outras atividades, como jogar games, ir a bailes, fazer cursos,
praticar esportes ou fazer atividades artísticas com percentuais mais altos do
que a leitura. Assistir televisão teve um dos índices mais altos – 60%, assim
como assistir filmes ou vídeos em casa e reunir-se com a família e amigos com
percentuais entre 57%, 53% e 41%. Enquanto o percentual que disse gostar de ler
livros é baixo, 41% disse gostar de escrever, como se não houvesse relação
entre as duas ações. Dito em outros termos, escrever na rede prescindiria a
leitura. O tempo livre dedicado à internet é considerável: 70% para o não
leitor e 87% para o leitor. Quando a pesquisa focaliza a faixa etária, os
percentuais aumentam progressivamente, de 60% até 91% entre os 18 e 29 anos, só
reduzindo aos 70 anos ou mais. Nas mesmas faixas de 18 e 29 anos, o tempo livre
empregado em jogar video game também
tem percentual alto, só diminuindo igualmente à medida que a idade aumenta. O
tempo livre gasto em internet é alto também por escolaridade. No fundamental II
(correspondente às séries de 5ª a 8ª) é de 80%, chegando a 91% no nível
superior. A pesquisa aponta que 30% faz uso da internet para ler livros, 61%
para ler notícias e informações em geral, 59% para aprofundar conhecimento
sobre tema de seu interesse, porém, 62% dos leitores nunca ouviu falar em livro
digital. Entre os leitores que já leram livro digital, 75% leram no celular ou
no smartphone. Apesar desse quadro que parece apontar uma prevalência de interesse
em utilizar o meio digital, a pesquisa aponta que 83% dos leitores pesquisados
leram o último livro em papel. Além da inadequação em termos visuais e de
configuração, a leitura é muito mais dispersiva no meio eletrônico, sendo que 68%
dos leitores pesquisados disseram que quando leem livros digitais interrompem
mais a leitura para consultar mensagens no celular ou no computador, outros 53%
disseram ser mais difícil se concentrar quando leem livros digitais. De forma
geral, a leitura de livros físicos e digitais apresenta índices baixos em
diversos níveis de escolaridade, inclusive no nível superior, onde atinge apenas
35%. Sobre o papel de influenciadores digitais, a pesquisa evidenciou que, no
geral, apenas 2% dos leitores mencionaram a indicação de um influenciador
digital, de um blog, das redes
sociais ou do Youtube como motivador da escolha de um livro para ler. A
atividade que 61% dos entrevistados passa mais tempo fazendo na rede é a de
trocar mensagens no WhatsApp ou no chat da rede Facebook. Somente 6%
mencionaram ler livros, sendo que apenas 1% disse ler livros em primeiro lugar.
Esse dado contradiz o argumento de que o trabalho de divulgação e motivação na
rede digital tem ampliado o público leitor e explica em parte a parcela de
analfabetos funcionais que consome conteúdo sem análise e reflexão. O acesso ao
meio digital foi viabilizado sem que a maioria da população brasileira tivesse
desenvolvido, de fato, a compreensão e a capacidade do que é ler. Desse modo, o
problema é mais estrutural do que de mudança de veículo. Não é apenas o meio
digital que concorre com o livro físico; é a carência de compreensão, vivência
e prática de leitura em seu sentido amplo. Aberto esse parêntese, voltemos ao
autor independente e aos leitores no contexto de feiras e festas literárias.
A bandeira da inclusão tremulando pelas feiras e festas
literárias que proliferam no Brasil oculta uma participação não equitativa
entre os autores. Em primeiro lugar, os ditos autores independentes dependem,
principalmente, de recursos para publicarem seus livros, para irem a feiras,
apresentarem, divulgarem e venderem seus livros, pois encontram dificuldade de
financiamento pelas editoras estabelecidas no mercado, dificuldade de venda em
livrarias que cobram alto percentual de consignação, descompensando para os
independentes o retorno dos valores investidos na publicação.
Muitos autores independentes se acomodam ao papel que
lhes relegam as feiras e festas literárias. Não se solidarizam nem se organizam
para questionar por que autores independentes e desconhecidos e autores conhecidos
e prestigiados têm de ficar separados nesses eventos; por que há
distintivamente uma alocação de espaço de visibilidade, a livraria, o estande,
a instituição cultural pública, o auditório para os autores conhecidos e o
espaço improvisado, quando há, para os anônimos e desconhecidos; por que o
acesso à divulgação e contato com o público não é o mesmo para todos, sendo as
rodas de conversa, as palestras reservadas aos autores conhecidos e
prestigiados, enquanto aos desconhecidos cabe apenas o lugar na plateia ou nos
corredores. O que faz o autor ser conhecido se não o acesso aos canais de
divulgação e, logo, de ascensão, evidência e valorização?
Os “independentes” acolhidos para lançamento de suas
obras não figuram na programação oficial dos eventos. Recebem o aviso de que
devem divulgar seu lançamento entre amigos, parentes e conhecidos, ou seja: têm
de se autopromover e agenciar como se não fizessem parte do evento que lhes
está oferecendo a oportunidade. Só aqueles escolhidos como vedetes para o
público têm seu flyer de lançamento
anunciado pelo meio oficial de divulgação. A situação dos autores independentes
faz pensar que o autor e o livro são veiculados como valor pecuniário mais do
que cultural, são considerados valor de troca segundo sua cotação no mercado.
No artigo “Desafios e vitórias; o caminho dos autores independentes na feira do
livro de SP” (On line, 2025), a autora Susana Resende afirma: “Ser autor
independente no Brasil ainda é um desafio [...]”. Em outro artigo “Mercado
editorial brasileiro em 2026: crescimento de leitores, queda de títulos e os
desafios da diversidade literária” (2026, Online), André Bodini faz um
diagnóstico: “[...] a literatura independente continua sendo um universo à
parte do mercado editorial tradicional, com distribuição mais limitada, menos
recursos para marketing e visibilidade restrita a nichos específicos”.
A questão, logo,
apresenta-se a partir da constatação de que os escritores independentes são
postos à margem do mercado de publicação, distribuição, vendagem e, portanto,
do universo provável de leitores. Deparam-se com barreiras sobre sua obra ser
vendável, segundo critérios que nem sempre são os de qualidade, mas
principalmente, de comércio e de massificação do gosto. O que é vendável no
comércio de bens culturais nem sempre é qualitativamente melhor, mas, muitas
vezes, o que pode ser quantitativamente vendável. Todos os segmentos da
produção de bens culturais passam por esse crivo mercantilista e raso que
avalia o vendável e o não vendável, independentemente da formação dos
receptores desses bens.
Os autores reconhecidos
pelo público que participam das feiras para promoverem e venderem seus livros usufruem
do reconhecimento pelos sistemas de ensino, midiático e editorial. O critério
analítico postula o reconhecimento e o valor, mas quem postula o valor de um
autor independente que publica por conta própria é ele mesmo, desde que possa
custear sua publicação, pois ela só será avaliada pelos leitores
posteriormente. O meio “independente” agrega aventureiros, pessoas cujo status
de se projetar como escritores, muitas vezes, atropela o esforço, o
aprofundamento, o próprio estudo. Não é, em contrapartida, verdadeiro que o
critério de publicação das editoras com renome no mercado seja sempre o mais
especializado e de mérito indubitável. Esse meio da mesma forma agrega
aventureiros. Há sob os grandes selos editoriais escritos que não valem a
impressão nem a divulgação. Não é uma verdade inquestionável que todo mundo
deve escrever, porém, todo mundo que escreve deveria ter consciência do que é
escrever. Contemporaneamente o método da exibição se efetiva mais do que outros
para que um autor possa ter visibilidade, apesar da resposta do público e de
leitores, categorias distintas, não ser algo tão imediato.
O sistema econômico
significa e resignifica os autores. Essa resignificação implica também
reconhecimento. Foi o que aconteceu com Carolina Maria de Jesus, que não
conheceu o ambiente programado, estandardizado, de interesse do mercado
editorial, das feiras financiadas por verbas públicas e privadas, como também não
conheceu as facilidades do mundo digital, dos fast foods das bienais ou a abundância de guloseimas das feiras,
festas, festivais literários locais. Carolina sempre batalhou para colocar
alguma comida em seu prato e de seus filhos, seu processo de escrevivência era um luxo que ela se
permitia, seu encontro com os leitores através de sua obra foi tardio, na
verdade, um encontro que ela não planejou.
Para que feiras
literárias pudessem promover verdadeiros encontros entre autores, obras e
leitores seria preciso democratizar os espaços, os tempos, dando oportunidade a
uma maior parcela de classes, sujeitos sociais. Os autores acadêmicos ou
midiatizados ganham cachê, custo de viagem, hospedagem, alimentação, possuem
agentes, enquanto o autor desconhecido come as migalhas ou não come nada. Os
eventos tornam-se espetáculos, com grande público, embora os leitores reais
possam estar longe dos lucros do comércio e das grandes cifras de vendagem das
bienais e feiras. Numa entrevista para Karla Maia, da agência UVA (Universidade
Veiga Almeida), sobre a Bienal do Rio em 2023, intitulada “Escritores
independentes e editoras pequenas procuram visibilidade na Bienal do livro”
(2023, Online), uma autora estreante comenta: “A parte mais intensa e
emocionante é ver as pessoas confiando no seu trabalho. O livro acaba sendo só
um meio, essa troca é o mais importante para mim”. Nos eventos, os próprios
autores se tornam meio, caracterizando-se de acordo com o livro, oferecendo
brindes para atrair o público. Desse modo, tanto autores quanto livros acabam
se tornando um meio e não um fim nos espaços reservados aos independentes. Enquanto
as grandes editoras ocupam os corredores centrais e movimentados, os autores
independentes, as pequenas editoras e os coletivos de autores são relegados às
áreas periféricas e racham o preço do estande a eles oferecido. Esses estandes
têm alto custo nas bienais, especialmente para autores sem recursos,
desconhecidos do público, e, portanto, considerados como pouco competitivos
pelas grandes livrarias e editoras. A situação do público também é peculiar
nesse contexto. Se um evento é programado como espetáculo, ainda que o objetivo
propalado seja a leitura, ele se torna efetivamente espetáculo. Os visitantes
se comportam como público, não, necessariamente, como leitores. Repetem os
clichês em torno do ato de ler nas entrevistas gravadas para as redes de tv ou para as redes sociais. Um artigo publicado no
blog Toma aí um poema, intitulado “Feiras
literárias brasileiras: mercado editorial versus valor cultural” (2025, Online)
informa que os grandes eventos concentram-se cada vez mais em atrair público e,
assim, movimentar o mercado editorial e que as Curadorias dos eventos, por sua
vez, apostam em fórmulas ditas populares, com apelo nas redes digitais.
A divulgação em massa
é priorizada em detrimento do debate sobre o que é realmente a leitura. E o
público é igualmente uma massa de pessoas entre alguns leitores contumazes e casuais.
Nesse contexto, os autores independentes perdem ainda mais espaço, sendo,
geralmente, alocados atrás das bancas de artesanato e de alimentação,
chamarizes em muitos eventos. No artigo, “Os livros não vão morrer e podem
virar festa: a febre das feiras literárias e seus impactos no mercado
editorial”, publicado no blog da UEMG (2025, On line) relata-se que na Bienal
do livro de 2025, no Rio de Janeiro, circularam mais de 740 mil pessoas, um
número que registrou um aumento de 23% em relação a 2023. Dentre as pessoas que
circularam pelos pavilhões, 130 mil eram estudantes de escolas públicas. Com
essa informação, constata-se que a maioria do público nesse e em outros
eventos, é de estudantes da rede pública que são levados em caravanas. Esse
público “compulsório” faz o maior contingente nos eventos. Geralmente recebe
como incentivo à participação (e à leitura) vales-livros das secretarias de
educação estaduais e municipais, os quais consistem em cupons e cartões de desconto
distribuídos a professores e alunos. Esses vales são financiados com verba
pública e têm o objetivo louvável de promover uma política de leitura inclusiva,
levando em consideração que professores e alunos de estratos sociais não
privilegiados, muitas vezes pauperizados, não possuem recursos financeiros de
sobra para a compra de livros. Contudo, nessa iniciativa se apresenta mais um
entrave para os autores independentes. Segundo suas próprias reclamações, os
programas de “vale-livro” e editais culturais costumam favorecer grandes
editoras e livrarias credenciadas. Com isso, ocorre a exclusão dos
independentes ao direito de receber os vales e os cupons de desconto, sendo
priorizadas as grandes redes de livrarias. Muitas vezes essa exclusão ocorre
através das regras de credenciamento dos editais que dificultam a inscrição com
exigências de documentos que os independentes não conseguem atender. Aqueles
que conseguem transpor esses impedimentos se deparam com a morosidade dos
repasses governamentais, após a troca de exemplares pelos vales. Todas essas
dificuldades acabam por levar à reivindicação de cotas específicas de vales e
cupons de financiamento público aos independentes.
Segundo dados da
pesquisa Painel de varejo de livros no Brasil, realizada pela consultoria
Nielsen Bookscan e divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros
(SNEL), em 2021, referida no artigo “Autores dependentes no Brasil têm
dificuldades no mercado” (2022, Online), os leitores brasileiros compraram 55 milhões
de exemplares impressos, o que foi festejado como uma cifra recorde. Dos vinte
livros que compuseram a lista dos mais vendidos, apenas cinco eram de autores
brasileiros, o que revelou uma preferência dos leitores brasileiros por
literatura estrangeira. Muitos autores brasileiros reclamam da dificuldade de
romper esse quadro da distribuição de livros no Brasil. O depoimento do
escritor Odair Schirmer, por exemplo, colhido no artigo, aponta o problema:
“Você não encontra muitas obras nacionais nas livrarias. Você vê os indicados
pela lista de best-sellers do New York Times. As pessoas leem o que está em
destaque” (2022, Online). No mesmo artigo, a escritora Cristina Medeiros
comenta que o livro estrangeiro que chega ao Brasil já é um best-seller (2022,
Online) Isso significa mais um fator de desvantagem para os autores
independentes que concorrerão com autores de fora, os quais já possuem canais
de indicação e distribuição.
O transplante
literário não é novo em nossa história. Em Folhetim:
uma história (1996) Marlyse Meyer demonstrou o impacto da produção
estrangeira em nossa leitura. Partindo do ano de 1843, Meyer demonstra que o
número de obras traduzidas e não traduzidas era superior ao de obras
brasileiras. A autora enfatiza que o ritmo intenso da publicação de folhetins
dependia não apenas da demanda interna, mas também da recepção e aceitabilidade
que tinham em Paris. Assim, quando uma obra não atingia o sucesso esperado na
capital francesa, a sua publicação no Brasil era suspensa e outra tomava o seu
lugar. Meyer registra também o enfado que esse gênero causava em alguns
autores, entre eles, Machado de Assis. Ainda assim, autores brasileiros se
entregaram à tarefa de imitação dos folhetins estrangeiros, produzindo
resultados que eram, em geral, piores do que os originais, segundo afirma a
autora. Esse aspecto não desapareceu do meio editorial e de leitura brasileiro.
A Bienal realizada em 2025 no Rio de Janeiro apresentou como atração para o
público uma roda gigante chamada “Leitura nas alturas”, constituindo uma
atração temática com cabines personalizadas por livros, oferecendo áudios
imersivos de histórias como “Percy Jackson” e “A hipótese do amor”,
transformando o evento em um parque de diversões literário no Rio Centro. O
objetivo, de acordo com os organizadores, era oferecer uma experiência
inovadora e sensorial, ao unir literatura, diversão e entretenimento e permitir
ao público ver o universo dos livros de um modo diferente. Dos livros que
constavam nas 16 cabines temáticas, apenas três eram de autores brasileiros. Os
demais eram obras traduzidas ou versões cinematográficas e de seriados. Da
mesma forma, a lista dos livros mais vendidos no Brasil, divulgada na Nelsen –
PublishNews, era principalmente de livros para colorir – “Bobbie Goods”, com
apenas três obras brasileiras e somente uma de ficção, honrosamente “A hora da
estrela”, de Clarice Lispector. É de estranhar que um país com uma rica bagagem
de autores ficcionais não os torne atrativos para seus leitores. A lista dos
mais vendidos divulgada em maio de 2026, livros de auto-ajuda, devocionais,
passatempos, thrillers psicológicos, não difere muito dos livros escolhidos
para a viagem imersiva na roda gigante da Bienal, salvo por alguns clássicos da
literatura mundial. A Bíblia continua figurando como o livro mais lido e
vendido na história do Brasil.
O patrocínio privado
e público, através da captação de recursos pelas leis de incentivo à cultura, configura
o embate “capital cultural x capital econômico”, referido no blog Toma aí um poema (2025, Online). Para
angariar esses recursos, foram criadas leis federais, como a Lei Roanet, uma
lei de incentivo fiscal que permite a empresas e pessoas físicas destinarem
parte de suas despesas com imposto de renda para financiar projetos literários;
recursos também podem ser angariados da Secretaria Especial de Cultura, do
Ministério da Cultura, configurando financiamentos estaduais e municipais
através das fundações culturais, além do patrocínio propriamente privado e dos
programas de parcerias. Na lista figuram Petrobrás, Vale, Suzano, Grupo CCR,
Shell, instituições bancárias (BNDS, Caixa Econômica Federal, Itaú-Unibanco,
Nubank, aplicativos (Skeelo, OLX), além de programas como o Brasilian
Publishers, em parceria com a câmara Brasileira do Livro, Apex Brasil para
promover a presença de editoras brasileiras em feiras internacionais.
No século XXI, os
eventos ganharam projeção, ampliação nunca antes vista. As feiras e as festas
literárias se propagaram por praticamente todo o país. A própria utilização das
palavras feira e festa já é um indicativo do quanto o caráter cultural e
educativo foi absorvido pelo fim econômico. Numa feira, a finalidade é a venda,
as relações são estabelecidas entre vendedores e compradores. A festa, por sua
vez, implica a espetacularização, o ajuntamento de pessoas com objetivo de
comemorar. A necessidade de introspecção que requer a leitura torna-se estranha
ao ambiente de ruídos, algazarras, sons estridentes que muitos eventos
apresentam.
A questão fundamental
dos eventos literários está para além das considerações sobre os autores
independentes. É preciso indagar se esses eventos estão desenvolvendo de fato o
gosto e a prática da leitura. O que se constata é que desde que os eventos se
espetacularizaram, o seu número e o número do público aumentou ano a ano, mas
esse aumento não tem se refletido num aumento de leitores efetivos no país.
Seriam esses eventos, como assinalou Suzana Vargas no artigo “O que se festeja
nas festas literárias?” (2015, Online) fenômenos de marketing que não levam de
fato ao conhecimento e à prática da leitura? Se o livro enquanto artefato
concorre com os aplicativos, com os smarts,
os e-books, a leitura propriamente
dita não está concorrendo com esses novos recursos. A leitura demanda tempo,
concentração, reflexão e o que ocorre nas telas é o oposto. O tempo é
consumido, zapeado na novidade, na quantidade inapreensível. Contrariamente, um
livro lido, por suas próprias características, é usufruto de tempo. Se um
público vai a um evento literário com o objetivo de se entreter parece claro
que o sistema de ensino está falhando no estímulo à leitura, extensivamente, a
programação cultural, o evento, também a está inviabilizando com dias e
horários que não atendem a todos as classes e trabalhadores. Se na outra
extremidade, os produtores culturais são afrontados por espaços pagos, venda
por consignação inviável e distinção por prestígio e fama, as bienais, feiras e
festas deixam de ser acessos democráticos à leitura e se tornam eventos
hierarquizados para os autores e para o público.
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