segunda-feira, 2 de abril de 2018

LIVRE INICIATIVA


                                                                                                Isaac Warden Lewis
Roberto Cardoso começou a trabalhar quando ainda era criança. Para se sustentar, trabalhou em muitas empresas e fez todos os tipos de serviços, como de auxiliar de escritório, porteiro, faxineiro e escriturário. Com quase quarenta anos, decidiu que era preciso iniciar seu próprio negócio para viver uma vida mais folgada.
Com essa disposição, acordou, certo dia, com uma grande ideia. Pensou em vender os espinhos da árvore do tucumã como palitos de dentes. Decidiu colocar, então, uma média de duzentos espinhos numa caixinha fabricada numa gráfica de um amigo e oferecê-las a restaurantes, mercearias e supermercados pela metade do preço das caixas de palitos de madeira. Surpreendentemente, seu empreendimento obteve enorme sucesso no mercado e, logo, ele estava exportando caixas e mais caixas de espinhos para outras cidades.
Inicialmente, Roberto Cardoso colhia espinhos de tucumãzeiros silvestres. Depois, passou a plantar árvores de tucumãs em grandes porções de terras para ter a sua disposição, de maneira racional, espinhos suficientes para atender o mercado. Com essa medida, ele tornou-se um empresário vitorioso. Algum tempo depois, ele foi premiado como empresário do ano pela Associação Comercial de sua cidade.
Tendo-se tornado um exemplo de empreendedor bem sucedido, Roberto Cardoso começou a ser imitado por outras pessoas, que desejavam se tornar independentes economicamente. Logo, essas pessoas começaram a produzir caixinhas contendo em média trezentos espinhos e ofereceram-nas a restaurantes, mercearias e supermercados pela metade do preço que o Roberto Cardoso vendia suas caixinhas de espinhos.
A cada momento, surgiam dezenas de concorrentes que ofereciam caixinhas de espinhos a preços cada vez menores. Roberto Cardoso sentiu o peso da concorrência, mas teve a ideia de vender o seu produto ao mercado internacional. Confiou na globalização. Foi um sucesso. Por mais algum tempo, a sua empresa vendeu milhões de caixinhas de espinhos em toda a parte do mundo. Entretanto alguns países conseguiram importar sementes de tucumã e, logo, Roberto Cardoso viu diminuírem os pedidos de caixinhas de espinhos. É que esses países tornaram-se grandes produtores e exportadores de caixinhas de espinhos a preços bem abaixo do preço cobrado pela empresa de Roberto Cardoso. Era o resultado da globalização.
Dessa vez, ele viu a sua empresa falir definitivamente. Não havia mais compradores para as suas caixinhas de espinhos. As suas propriedades foram confiscadas para saldar as dívidas financeiras. Roberto Cardoso ficou pobre novamente. Devido a sua idade, cinquenta anos, não conseguiu qualquer emprego. Por isso, ele continua vendendo as suas caixinhas de espinhos. Nas ruas movimentadas da cidade, vários vendedores ambulantes tentam vender os seus produtos aos transeuntes. Numas dessas ruas, Roberto Cardoso possui uma mesinha portátil na qual ele coloca algumas caixinhas de espinhos para vender aos pedestres que passam por ali. Ao lado dele, outro falido empresário de caixinhas de espinhos faz a mesma coisa. Ao lado deste último, outro falido empresário...
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Do livro “A ilha da Fantasia e outras histórias”

sexta-feira, 2 de março de 2018

A PEDAGOGIA DAS ESCOLAS ... DE SAMBA*

                                                                                                                   Isaac Warden Lewis

Os desfiles das escolas de samba, no Rio de Janeiro, vêm se constituindo em verdadeiras obras de arte. E como toda obra de arte, os desfiles das escolas de samba são também educativos. Por isso os enredos dessas escolas devem não somente ser apreciados, mas também analisados criticamente.
Os desfiles das escolas de samba proporcionam aos espectadores e aos telespectadores uma oportunidade para apreender um fato da história e/ou da sociedade brasileira. E como ato educativo, refletem uma concepção pedagógica que pode praticar a educação a favor de uma minoria privilegiada ou da maioria desfavorecida.
As concepções pedagógicas geralmente refletem as posições políticas dos trabalhadores e dos administradores escolares. Do mesmo modo, em sua prática avaliativa, os inspetores e os supervisores escolares não são neutros ou imparciais em relação à ideologia da classe privilegiada ou da utopia da classe desfavorecida.
Os primeiros sambistas foram perseguidos pela polícia, no Rio de Janeiro, no final do século XIX e início do século XX. Aos ouvidos europeizados da classe privilegiada, de então, o samba era uma música exótica, africana, que não somente ameaçava o domínio das músicas eruditas europeias, como também agradava muito mais às camadas populares da sociedade.
Apesar da perseguição, o samba tornou-se a música popular brasileira, por excelência. Tornou-se não somente a música da diversão, da festa, mas também a música do protesto, da resistência, das camadas mais perseguidas e exploradas da sociedade. Talvez, por isso, os temas dos desfiles das escolas de samba tenham sido censurados, ao longo da História, principalmente, os temas que apresentavam o sofrimento e a exploração do trabalho do negro brasileiro ou que exaltavam os líderes e mártires negros.
Por muito tempo, as escolas de samba fizeram desfilar na avenida negros fantasiados de reis, imperadores, barões ou condes e negras fantasiadas de madames, condessas, baronesas ou princesas. Personagens que nada têm a ver com as lutas e os interesses maiores dos africanos negros, nascidos no Brasil.
O desfile da Vila Isabel, em 1988, foi, portanto, uma verdadeira revolução, quando apresentou um tema crítico sobre a luta da resistência negra no Brasil: “Kizomba, festa da raça”, cantando os heróis e guerreiros negros, como Zumbi dos Palmares e as heroínas negras como Anastácia e Clementina de Jesus, além de ressaltar a contribuição cultural negra na sociedade brasileira.
Valeu Zumbi/O grito forte dos Palmares (...) Zumbi valeu/Hoje a Vila é Kizomba/É batuque, canto e dança/Jongo e Maracatu/Vem menininha pra dançar caxambu/Ôôôô negra mina/Anastácia não se deixou escravizar/Ôôôô Clementina/O pagode é o partido popular.(1)
Também em 1988. A Beija-Flor, com o tema: “Sou negro, do Egito à Liberdade”, procurou resgatar a cultura negra, denunciando, ao mesmo tempo, as injustiças sociais sofridas pela coletividade negra na sociedade brasileira:
Eu sou negro, e hoje enfrento a realidade/E abraçado à Beija-Flor, meu amor/Reclamo a verdadeira liberdade (...) Liberdade raiou, mas a igualdade não, não, não, não.(2)
Os desfiles das escolas de samba do primeiro grupo, no Rio de Janeiro, em 1989, refletiram bem as concepções políticas e ideológicas dos trabalhadores e administradores das escolas de samba (carnavalescos e presidentes) e dos inspetores e supervisores (julgadores dos desfiles).
Enquanto alguns trabalhadores, administradores e julgadores entendiam que as escolas de samba deviam apresentar tema que refletisse sobre a realidade sentida e sofrida pela maioria do povo brasileiro, outros entendiam que as escolas de samba deviam, em seu enredo, divertir, distrair o público, desviá-lo da sua realidade.
A Imperatriz Leopoldinense, a primeira colocada, no desfile do ano de 1989, apresentou o enredo “Liberdade! Liberdade! Abras as asas sobre nós”, tratando acontecimentos da História do Brasil ingênua e superficialmente. Reviveu ainda negros fantasiados de duques e barões e negras fantasiadas de madames e princesas:    
Da guerra nunca mais/Esqueceremos do patrono, o duque imortal/A imigração floriu de cultura o Brasil/A música encanta e o povo canta assim (...)Pra Isabel, a heroína, que assinou a lei divina/Negro dançou/comemorou o fim da sina/Na noite quinze reluzente/Com a bravura, finalmente/O marechal que proclamou/Foi presidente.(3)  
A Beija-Flor, a segunda colocada, apresentou o tema “Ratos e Urubus...larguem a minha fantasia”, revolucionando a concepção de desfile das escolas de samba, ao proclamar a dialética entre a fantasia e a realidade, entre o lixo e o luxo, entre o sagrado e o profano:
Reluziu...É ouro ou lata/Formou a grande confusão/Qual areia na farofa/E o luxo e a pobreza/No meu mundo de ilusão.
Xepa de lá pra cá xepei/Sou na vida um mendigo/Da folia eu sou rei.
Sai do lixo a nobreza/Euforia que consome/Se ficar o rato pega/Se cair urubu come...(4).
A União da Ilha, a terceira colocada, apresentou o enredo “Festa Profana”, em que contou e cantou a história do carnaval, sem preocupaçôes maiores, a não ser a de promover diversão para os brincantes e para o público:
O rei mandô/Cair dentro da folia/Eh! Lá vou eu/O sol que brilha nessa noite vem da Ilha/Lindo sonho que é só meu (...) Eu vou tomar um porre de felicidade/Vou sacudir, eu vou zoar toda a cidade (5).
A Vila Isabel, a quarta colocada, apresentou o tema: “Direiro é direito”, tratando e retratando questões que precisam ser lembradas aos brasileiros todos os dias do ano, inclusive nos dias de carnaval, tais como: liberdade, igualdade, saúde, educação e moradia. Nem por isso a Vila Isabel deixou de fazer carnaval:
É hora da verdade/A liberdade ainda não raiou/Queremos o direito de igualdade.
Viver com dignidade/Não representa favor.../A Declaração Universal/Não é um sonho, temos que fazer cumprir/A justiça é cega mas enxerga quando quer...
Clareou/Despertou o amor que é fonte da vida/Vamos dar as mãos e lutar/Sempre de cabeça erguida...(6).
Pela ordem das colocações das escolas de samba, podemos dizer que as escolas classificadas em primeiro e terceiro lugares refletem a concepção tradicional e conservadora de alguns julgadores e o segundo e quarto lugares refletem a posição mais afinada e comprometida com os interesses populares de outros julgadores.
Contudo o grande juiz e educador é ainda o povo que, na hora da verdade, transforma o luxo em lixo e o lixo em luxo.
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1 – Kizomba, festa da raça, de Rodolpho, Jonas e Luiz Carlos da Vila/2 – Sou negro, do Egito à Liberdade, de Ivancué, Cláudio Inspiração, Marcelo Guimarães e Aloísio Santos/3 – Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós, de Niltinho Tristeza, Preto Joia, Vicentinho e Jurandir/4 – Ratos e urubus... larguem minha fantasia, de Betinho, Glyvaldo, Zé Maria e Osmar/5 ´Festa Profana, J. Brito e Bujão/6 – Direito é direito, de Jorge King, Serginho Tonelada, Fernando Partideiro, Zé Antônio e J. C. Couto.

·         Do livro “Educação ou desvelamento".

sábado, 20 de janeiro de 2018

A VIDA E A REALIDADE


                                                                                  Isaac Warden lewis
Eu sou sua realidade
Você é minha realidade. 
Eu sou o outro para você.
Você é o outro para mim.
                                   Meu mundo é também seu mundo.
                                   Seu mundo é também meu mundo.

                                   Minha vida se ampara na sua vida.
                                   Sua vida se ampara na minha vida.

                                   Minha doença pode ser sua doença.
                                   Sua doença pode ser minha doença.

                                   Minha morte é parte da sua morte.
                                   Sua morte é parte da minha morte.

                                   Minha história é parte da sua história.
                                   Sua história é parte da minha história.

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Do livro “Um pássaro que canta

sábado, 2 de dezembro de 2017

O MEU CANTO

                                                                                                       Isaac Warden Lewis
O meu canto é o canto do meu povo.
O meu povo enfrenta a diáspora.
A diáspora ensina o meu povo.
O meu povo aprende a sofrer.
 
Com o sofrer, aprende a viver.
O meu povo ri, chora, canta,
dança, samba, lamenta, trabalha,
luta, resiste, sobrevive.

Ainda assim, o meu povo é apartado, perseguido,
discriminado, vilipendiado, massacrado.
Por isso eu canto o canto do meu povo.
O canto do meu povo denuncia os males da diáspora.

O meu povo saiu da África negra
para viver a África colonial no Brasil.
Ainda assim, o meu povo ri, chora, canta,
dança, samba, lamenta, trabalha,
luta, resiste, sobrevive.
 
Esse é o canto do africano
que nasce e vive no Brasil.
É o canto da alegria e da tristeza.
É o canto da luta e da resistência.
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Do livro "Sentimento e consciência"

SAMBA E POESIA


                                                           Isaac Warden Lewis
O samba é poesia
Transforma melancolia
               em pura alegria.
 
Seu ritmo sagrado, criado
pelos negros escravizados,
         é cantado e dançado.
 
Seu canto denuncia a dor
do povo africano no Brasil.
Também destaca a luta
desse povo em prol de sua cor.
 
Sua dança tanto sublima
o dia a dia do povo negro
quanto afirma e resgata
sua dignidade africana.
 
O samba é poesia.
Seu ritmo sagrado
é um ato de libertação.
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Do livro "Um pássaro que canta"

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

VIDA E MORTE DOS MENINOS DE RUA


                                                                                        ISAAC WARDEN LEWIS

Numa manhã cinzenta,
um crime sangrento:
Meninos sonolentos
com os corações lentos
foram assassinados.
 
Viver sonhando
Sonhar dormindo
Dormir morrendo
Morrer na rua
Foram  seus  legados
 
Numa manhã cinzenta,
um crime sangrento:
Meninos sonolentos
Com os corações lentos
foram assassinados.
 
Vida com paternidade.
Crescimento com  escolaridade
Direito à justa sociedade
Usufruto de humana solidariedade
foram-lhes negado.
 
Numa manhã cinzenta,
um crime sangrento:
Meninos sonolentos
Com os corações lentos
foram assassinados.

 Meninos marginais
Meninos carentes
Meninos pivetes
Meninos de rua
Foram-se titulados.
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Do livro "Sentimento e consciência"

 

 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

AMAZÔNIA: O LEGADO DOS POVOS DA FLORESTA


                                                                                        Isaac Warden Lewis
Ao longo do litoral do Brasil,
há o mar de água salgada.
Há beleza no mar de água salgada
 
Em toda a Amazônia,
há mares de água doce:
Solimões, Purus, Amazonas, Negro,
Madeira, Tapajós e outros rios.
Há beleza nos mares de água doce também.

Além disso, na Amazônia,
Há mar de árvores.
É a floresta amazônica.
Há beleza no mar de árvores também.

Na Floresta Amazônica,
os povos da floresta lutam para defender e resgatar
o legado milenar de seus antepassados:
O respeito ao ecossistema da Amazônia.
Os conhecimentos de Ecologia.
A prática da economia sustentável.
O cultivo de plantas comestíveis.
O uso de plantas medicinais.
A preservação dos mares de água doce.
A conservação do mar de árvores.

Na Floresta Amazônica,
a beleza maior está na luta e resistência
dos povos da floresta para defender  sua dignidade.
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Do livro "Um pássaro que canta".