Lucilene Gomes Lima
Acho que faleci às primeiras horas da manhã. Morri como sempre desejei. Parece estranho alguém desejar uma forma de morrer, mas, como a morte é inevitável, é compreensível que façamos planos para que seja o menos dolorosa possível. Ninguém quer perecer aos poucos, sofrendo até o suspiro final.
Estava dormindo quando a vida me deixou. Fiquei morto por algum tempo sem que ninguém percebesse. Pensaram, apenas, que prolongava as horas de sono. Não que dormia o sono eterno. Quando se deram conta de que eu não mais acordaria, fizeram um grande escarcéu. Minha mãe me sacudiu, puxou os cabelos, inconformada. Se eu pudesse, teria voltado à vida para lhe poupar tanto sofrimento. Se pudesse, dir-lhe-ia que não me sentia tão mal, ao contrário, gozava de um certo bem-estar.
Os vivos parecem ser os que realmente sofrem com a
morte.
Depois que o desespero amainou entre os familiares,
veio o momento de tomar as providências para o velório. Despiram- me e depois
ficaram discutindo com que roupa seria mais apropriado me vestir. Felizmente,
não pensaram em me colocar uma mortalha. Sempre tive horror a esse traje. Se
bem que de nenhum modo me adianta sentir horror agora. Certas coisas da morte
só fazem sentido quando se está vivo.
Meu irmão sugeriu que me vestissem com uma calça
cinza e uma blusa branca, das quais eu gostava muito. Minha irmã preferia que
me vestissem todo de branco e minha mãe achava que uma roupa preta dava mais
dignidade a um morto. Eu não simpatizava com nenhuma dessas opções. Gostava
realmente da calça cinza e da blusa branca, mas quando estava vivo. Morto, de
nada mais me adiantavam. Seria interessante se me deixassem nu. Afinal, por que
os mortos não podem ficar nus? Nascemos nus, nada mais justo que fiquemos nus
ao morrermos. Além do mais, facilitaremos a refeição aos vermes. Não obstante, temos
de respeitar o pudor dos vivos.
Pior do que a inútil discussão sobre como me vestir
foi terem me colocado nessa caixa apertada que se chama caixão. Parece que aos
morros reservam o menor espaço possível. E como faz calor aqui dentro! É
estranho que, morto, eu ainda tenha essas sensações. Pensava que os mortos
fossem indiferentes a tudo. Todavia, sinto calor e sinto o cheiro do café que
alguém está preparando. Ninguém me oferecerá um cafezinho? Claro que não. O café
é para os vivos. Onde já se viu um morto que tem sensações e vontades como eu!
Sinto também o perfume de flores. Por que será que
fazem questão de enfeitar essa sala com tantas flores? Enfeitam para mim ou
para eles mesmos? Deve ser mais uma forma de atenuar a impressão da morte. As
flores me agradam, mas não gosto dessas velas acesas. Tornam o calor, dentro
dessa minha nova e temporária moradia, insuportável. Para que velas? Não pensam
em mim como morto? Não sabem que essa luz deveria ser inexistente para um
morto, muito embora, surpreendentemente, eu a esteja “percebendo”?
Não pensava que tantas pessoas viessem me ver depois
de morto. Muitas delas, eu nem conheço. Provavelmente, estão aqui por pura
curiosidade de ver um homem morto. Gostaria de dizer-lhes que não há nada de
espetacular nessa situação.
Compreendo as lágrimas de minha mãe. É natural que
chore. Sabe que não mais me verá. Desaparecerei do convívio da família. O que
não compreendo é por que choram essas mulheres com as quais troquei poucas
palavras. Mal as conheço. Talvez tenha lhes dado um “bom dia” durante toda a
minha vida. No entanto, fazem questão de derramar “lágrimas de crocodilo” em
meu velório.
Muitas das pessoas que aqui se encontram se sentem
obrigadas a dizerem delicadezas a meu respeito. Pelo fato de eu estar morto,
dizem que eu tinha qualidades positivas e um futuro promissor: “Era um bom filho,
coitado”; “Tinha um grande futuro pela frente”. Se era um bom filho, não sei.
Tenho a impressão de que os mortos, se não foram crápulas execrados publica e
notoriamente, sempre são bons filhos, bons maridos e bons pais. Quanto ao meu
grande futuro, quem o pode saber? Pelo menos, até o momento em que morri, não
havia nenhuma indicação de grandeza.
Será que vou sentir falta desse mundo? Para sentir
falta, terei de ter uma consciência, precisarei continuar vivendo em espírito.
Mas, com a morte, não se acaba tudo? Não é o fim? Não entendo por que ainda
continuo recebendo as sensações do mundo dos vivos, por que ainda reflito. A
partir de que momento estarei no nada que sempre supus ser a morte? Quando a
minha matéria começar ase decompor? Queria que me levassem logo daqui, não
gostaria que sentissem repulsa pela minha deterioração. Por que sou um morto
com tantas vontades?
Se estou morto e ainda tenho consciência, para onde
ela irá? Estarei indo encontrar outras consciências de outros mortos? Tenho
tantas curiosidades. Mas tudo o que obtive até agora foi a impressão dos vivos
sobre a morte. Desconheço, tanto quanto eles, o que realmente ela seja. Não há
morte, morte mesmo? A morte está cercada de vida por todos os lados? Só há vida
na morte?
Deduzo que chegou a hora de me transportarem ao
cemitério e penso como o cortejo deverá seguir lentamente por ruas onde, antes,
eu sempre passei apressado. Eu e os outros tínhamos sempre pressa. Não havia
condescendência no trânsito nervoso. Hoje, diferentemente, creio que me darão
passagem, seguirão devagar. Isso me faz imaginar tudo acontecendo de forma
lenta em meu redor. Uma chuva fina caindo infindavelmente, pessoas carregando o
meu caixão com passos que se arrastam e pássaros cantando um canto longo,
triste como um réquiem.
O momento poético fica só na minha imaginação. Sinto
que carregam o meu caixão apressadamente e descem-no ao chão sem nenhuma
delicadeza, com um comentário desagradável: “Como pesa esse defunto! Deve ter
inchado demais ou então tinha muitos pecados”. Acredito que deveria ter sido
carregado por membros de minha família, mas suponho que ficaram sem condições
emocionais para fazê-lo. Talvez assim se justifique eu estar sendo levado por
esses desconhecidos tão pouco sensíveis.
Descem-me à cova, e ouço o barulho da tampa do
jazigo sendo arrastada. Meu peito dói com o esforço que faço em busca de ar.
Abro os olhos, e a primeira coisa que vejo é um pequeno orifício em um dos
lados do caixão, por onde uma fresta de luz. Como tudo mais é escuridão, a pequena
claridade faz meus olhos arderem, lagrimo. Essa sequência de gestos me atordoa:
a tentativa de respiração, os olhos abertos. Não podem mais ser impressões de
um morto. Antes, eu percebia, mas estava inerte. Agora, sinto que posso me
mover. Isso só pode significar que estou vivo. “Enterrado vivo!” – a sentença
se repete como um eco em minha mente.
Quero gritar, pedir socorro, mas, devido à asfixia,
a minha voz não sai. Só penso em chamar pela minha mãe. Faço um esforço para
articular uma palavra e só sai um “m...” Volto a tentar mas é sempre o mesmo
“m...” Pressinto que o tampão de cimento do jazigo está-se fechando, reúno todo
meu esforço, consigo movimentar os braços que estavam rígidos por tanto tempo
de imobilidade, bato na parede do caixão e, finalmente, com todas as forças de
meu pulmão, articulo a palavra mãe inteira, por três vezes.
Fui resgatado sob os olhares incrédulos de meus
familiares. A princípio, afastaram-se, assustados, supondo tratar-se de uma
assombração. Fui salvo graças à persistência do funcionário do cemitério. O
homem ouviu o meu grito e, devido à experiência com outros casos semelhantes,
não correu, não teve medo. Insistiu que a voz vinda de dentro do caixão não era
de um fantasma, mas de alguém vivo.
Eu estava-me acreditando realmente morto. E toda
minha experiência foi de um vivo. Então, ainda não é assim estar morto?
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Conto publicado originariamente em O mestre e o discípulo e outros contos