sexta-feira, 24 de abril de 2026

SALVE OS NATIVOS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO

                                                                                            Isaac Warden Lewis

No mês de abril de 2026, foram exibidos pela TV Cultura de São Paulo programas de extrema importância para a sociedade brasileira. Primeiramente, no dia dezenove, foi exibido o documentário Xingu conexão ancestral Tókio, demonstrando as identificações entre a arte japonesa e a arte dos povos nativos da sociedade brasileira, no caso, os povos do Xingu. O programa evidenciou que as pinturas e as esculturas produzidas pelos orientais, particularmente pelos japoneses, assim como suas relações culturais com a natureza, possuem ligações ancestrais com a arte e a cultura produzidas pelos povos do Xingu. Isso já foi estudado e demonstrado por arqueólogos e antropólogos brasileiros e internacionais.

No dia vinte e um de abril, o programa Roda Viva entrevistou o escritor Daniel Munduruku, que ministrou uma aula muito instrutiva sobre a vida e a cultura do povo Munduruku. Daniel nasceu em 1964, no Pará, fez vários cursos universitários, entre os quais Literatura e Filosofia. Publicou mais de 70 livros e continua escrevendo. Os livros são voltados para seus parentes e para jovens e crianças de nossa sociedade. Estranhamente os membros da Academia Brasileira de Letras nunca o convidaram para que ele fizesse parte dessa importante instituição. Isso me fez lembrar que a brasileira Giselda Laporta também nunca foi convidada para fazer parte dessa academia. Isso indica que essa academia menosprezou a sabedoria das mulheres e dos povos originários. E por falar nisso, por que será que nos nossos tribunais de justiça, nas assembleias legislativas e no Senado não temos afro-brasileiros e nativos nos representando? Por que será que esses indivíduos são premiados e consagrados em países que fundaram repúblicas democráticas e os brasileiros que se julgam europeizados não adotam medidas avançadas nas academias, nos tribunais e assembleias legislativas?

 A propósito, muitos de nossos nativos desenvolveram conhecimento através da oralidade, o que também me fez lembrar que certos literatos costumam citar o filósofo Sócrates, o qual se comunicava através da oralidade. Aliás, no mundo antigo a principal forma de comunicação era a oralidade. No caso de Sócrates, além de se comunicar oralmente com seus interlocutores, ele criou um método de investigação, a Maiêutica, questionando continuamente seus interlocutores, obrigando-os a revelar sua ignorância. Isso também me faz lembrar que em 1993 os doutores da USP questionaram os professores da Universidade do Amazonas por criar um curso de filosofia em São Gabriel da Cachoeira – AM, demonstrando ignorância e preconceito. Essa situação ainda me faz lembrar uma experiência de Helen Keller, norte-americana, cega e surda-muda, educada por uma cuidadora, Anny Sullivan. Um dia, ela estava em casa e recebeu a visita de uma amiga a qual resolveu andar pelos bosques nas proximidades. Na volta, Helen perguntou se ela havia visto alguma coisa interessante. A amiga, com dois olhos, dois braços e duas pernas, como relatou Helen Keller, respondeu que não vira nada de interessante. Todos nós, brasileiros universitários, devemos ler os livros de Hellen Keller, de Giselda Laporta e de nosso compatriota Daniel Munduruku.

É hora, ou melhor, já passou da hora, desse país que se diz abençoado por deus, o que é, evidentemente, uma falsidade medieval, fazer reformas realmente inclusivas na sua Constituição e implantar uma república verdadeira, não uma republiqueta de vassalos.

Falar em dia do índio é um equívoco porque não existe índio no Brasil tampouco indianos. O que existe são povos Mura, Parintintin, Tucano, Dessana, Baniwa, Maku, Guarani, Tupi-guarani, Tupinikim, Tupinambá, Tamoio, Krenak, Munduruku, além de muitos outros que estão nesse território há mais de dez mil anos. No norte do Brasil, havia os Manaú que organizaram uma luta sob o comando de Ajuricaba o qual recebia armas dos holandeses que desciam o rio Negro até Manaus. Havia também os Mura que empreenderam lutas contra os invasores portugueses e espanhóis. No Amazonas há ainda hoje os Waimiri-atroari que sofreram perdas de vidas durante a construção da Transamazônica. Por isso não bastam desculpas. A sociedade brasileira deve indenização a esses nativos também. Do Brasil saíram os Tupinambá que foram para o Caribe e também saíram os Caribe, que foram para aquela região. Quando os ingleses chegaram em Barbados, encontraram os Caribes e os Tupinambás. No sul do país, os Guarani sofreram muitas perdas também quando os “gloriosos” bandeirantes paulistas  invadiram o território guarani e sequestraram nativos em São Paulo. Houve um momento em que os jesuítas espanhóis que tratavam os nativos com respeito e consideração resolveram relatar os crimes covardes dos bandeirantes paulistas e solicitaram apoio da Espanha, que os autorizou a usar armas contra os paulistas. Os jesuítas fabricaram armas e ensinaram os nativos a usá-las. Os paulistas chegaram a aldeia para sequestrar mais nativos e foram recebidos à bala. Surpresos, fugiram do local, deixando alguns mortos. Resolveram seguir em direção ao Mato Grosso e Goiás para procurar garimpo e ouro e muitos morreram pelo caminho. Os que chegaram a uma aldeia encontraram ouro e resolveram descer o Tapajós para chegar a Belém. Pretendiam solicitar do governo da província autorização para explorar as minas que encontraram na aldeia dos nativos Tapajós. O governo demorou a autorizar a expedição dos paulistas. Ele não tinha autorização da Coroa portuguesa, mas o governo foi autorizado a permitir a exploração das minas dos nativos tapajós, sendo que o governo deveria acompanhar e autorizar as ações dos bandeirantes. Eles partiram para Goiás. Logo a seguir, uma comitiva do governo paraense seguiu para Goiás para fiscalizar o trabalho dos bandeirantes paulistas. Quando a comitiva paraense chegou a Goiás, encontrou os bandeirantes mortos. Os indígenas os assassinaram e se retiraram para local desconhecido. A comitiva paraense nada pode fazer e retornou a Belém. Tudo isso está relatado no livro “...E o branco chegou com a cruz e a espada”, de José Oscar Beozzo. Outro livro importante para conhecermos o país em que vivemos.  Minha homenagem póstuma a Márcio Sousa, Tiago de Mello, Arthur Engrácio que escreveram sobre a realidade de nativos que conviveram com judeus, turcos, quilombolas, libaneses, argelinos. A sociedade brasileira é multirracial e isso é motivo de orgulho. Não precisamos ir para países que adotaram falsa democracia e falsa república, incapazes de assimilar as lições dos revolucionários da Revolução Francesa e se orientaram por visões medievais.

Por fim, fica evidenciado por tudo que foi explicitado sobre a ocupação dos nativos no território brasileiro que eles ocuparam esse território há mais de dez mil anos e cuidaram bem da natureza desse território. A sabedoria milenar desses povos pode ser comprovada pela declaração de um nativo por ocasião da última enchente no Rio Grande do Sul, quando um jornalista perguntou a um nativo se as águas não invadiam sua residência e ele respondeu que seus parentes não construíam suas casas em terra baixa, no caminho das águas, construíam nas partes altas ou debaixo do caminho das águas e construíam cavernas para se abrigarem. Mostrou as cavernas construídas por eles debaixo do caminho das águas. Salve o dia dos nativos – 19 de abril.


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